A expansão do cenário estratégico asiático para o interior da Eurásia significa a ampliação de recursos naturais e industriais deste, mas, num quadro de maior diversidade, igualmente o surgimento de novos problemas e conflitos. Isto afeta tanto aos países da Ásia quanto aos EUA. Se os primeiros conseguem com isto ampliar seu espaço de manobra econômica e diplomática, por outro a complexidade contida na nova realidade em formação acrescenta dificuldades à uma região que atravessa uma evolução acelerada (com todas suas implicações) e não conta com mecanismos próprios de segurança coletiva. Para os Estados Unidos, uma Ásia maior, comportando maior número de atores políticos e com uma economia que progressivamente volta-se para o próprio continente, significa maiores dificuldades de controle sobre a evolução político-econômica da região.
Existe também outra realidade nova que tem que ser levada em conta quando se analisa o fenômeno asiático. No estudo dos cenários estratégicos dos anos 90, alguns analistas referem-se à formação de um Novo Segundo Mundo, nucleado pela RP da China. De fato, como lembra o politólogo britânico Fred Halliday, até 1989 viviam em países classificados como socialistas, 1,7 bilhões de pessoas. Após o colapso do bloco soviético, existiam ainda 1,3 bilhões nesta posição. Não se trata, contudo, de considerar-se este como um simples elemento residual. Sem dúvida, a globalização ligada a RCT potencializou um fenômeno que pode ser chamado de crise do socialismo.
Contudo, a derrocada do bloco soviético, um dos resultados deste fenômeno, foi apresentado pelo discurso Ocidental como o desaparecimento em escala planetária do socialismo como modelo social, político e econômico. E quanto à China Popular? Este seria apenas um fenômeno residual de caráter político, pois o sucesso econômico deste país contribuiria justamente para o fim de um regime percebido como cada vez mais disfuncional, como foi dito anteriormente. Sem dúvida, isto é possível, mas o "modelo chinês" tem demonstrado ser um projeto bem mais sólido do que pressupõe a argumentação liberal. As reformas chinesas foram estruturalmente diferentes do imobilismo soviético, que foi seguido por sua mal calculada tentativa de reforma, e tiveram resultados igualmente distintos.
Atualmente acadêmicos norte-americanos, como Samuel Huntington, manifestando-se oficiosamente, destacam o fim do conflito Leste-Oeste e o desaparecimento de ideologias universalistas como o socialismo, tendo tido seu lugar ocupado pelo conflito de civilizações e culturas. Contudo, para os que conhecem a Ásia mais de perto ou debatem com acadêmicos asiáticos, fica evidente a permanência do conflito ideológico, isto é, subjacente aos fenômenos econômicos, permanece a clivagem capitalismo x socialismo, e é como países socialistas que os policy makers e estudiosos japoneses, indianos e da ANSEA avaliam a realidade da China e da Indochina. Assim, o Novo Segundo Mundo atravessa uma NEP que, diferentemente da soviética, não se encontra limitada a "um só país", mas inserida na economia mundial, sobre a qual influi de maneira considerável. Além disso, ele está gestando um paradigma alternativo para a construção de uma Nova Ordem Mundial não-hegemônica, com um modelo de desenvolvimento nacional, de segurança e de governabilidade (o "modelo asiático", analisado anteriormente), o que atrai a atenção mundial, numa época marcada pela instabilidade do pós-Guerra Fria.
Este Novo Segundo Mundo mantém uma discreta e sutil cooperação estratégica com o "Velho Segundo Mundo", como foi visto antes, e também tem uma relação menos antagônica do que se poderia pensar com os países capitalistas da Ásia. Por um lado, os modelos de desenvolvimento e os regimes políticos dos países asiáticos possuem fortes semelhanças e importantes interesses comuns, sejam eles formalmente capitalistas ou socialistas. Estes modelos político-econômicos, "autoritários" e "estatistas" na perspectiva norte-americana, encontram-se hoje sob pressão ocidental, desde o campo dos direitos humanos ao dos mecanismos comerciais. A tendência dos países da região, então, é a de afirmar um certo discurso e política comum. Ocorre, entretanto, que alguns são extremamente vulneráveis a este tipo de pressão, por sua dependência diplomática, militar e comercial em relação aos EUA. Desta forma a China, embora se esquivando formalmente de desempenhar tal papel, acaba constituindo-se no principal elemento fiador e na garantia, em última instância, do "modelo asiático", um dos responsáveis pelo acelerado crescimento econômico da região.
Existe também um outro fator de longo prazo que se encontra associado a este fenômeno. Com a reincorporação de Hong Kong em 1997 e de Macau em 1999, para os asiáticos encerra-se o ciclo colonial, o que coincide com a ascensão econômica da região. E os dirigentes asiáticos têm perfeita consciência de que sem a China, isto não seria possível, o que não significa ignorar as profundas divergências intra-asiáticas. Mas agora está se formando um patrimônio comum que precisa ser preservado. Observado desde a perspectiva da geopolítica clássica da virada do século, não seria absurdo visualizar a afirmação da massa continental, ou Heartland, que passa a desafiar a Ilha Mundial. Estaria esta economia, cada vez mais da Ásia continental e menos do Oceano Pacífico, em condições de ameaçar a hegemonia da economia anglo-saxônica centrada nos grandes espaços marítimos planetários?
Um elemento chave para responder a esta questão, será a posição que o Japão vier a adotar. Este país, tido até recentemente como paradigma do desenvolvimento asiático, encontra-se em crise e na encruzilhada de grandes e inadiáveis decisões. Sua economia enfrenta uma prolongada recessão, a população está envelhecida, o consenso social começa dar sinais de esgotamento e o sistema político organizado em 1955, durante a Guerra Fria, entrou em colapso, e passa por redefinições que, todavia, ainda não estão suficientemente claras. Contudo, o nó da questão encontra-se justamente na política internacional, em relação à qual Tóquio precisa definir-se: como parte da economia Nichibei, ou seja, como a fronteira oriental do império americano (os "asiáticos ocidentalizados", segundo a tipologia de Huntington), ou como parte da Ásia e sua fronteira ocidental.
A economia nipônica tem se voltado progressivamente para o continente, as questões de segurança regional têm obrigado o país a um maior envolvimento local (como no caso da península coreana) e as pressões norte-americanas para que o Japão enquadre-se ao novo padrão que a potência "protetora" procura implementar para a economia mundial, levam muitos estadistas e empresários a defender uma maior autonomia para a nação, apoiando-se no continente. Mas, por outro lado, o Japão ainda depende significativamente do mercado dos EUA, são tremendamente vulneráveis às pressões diplomático-militares por sua dependência em matéria de segurança, além de encontrarem fortes reservas entre os países do continente, pois as grandes questões herdadas da Segunda Guerra Mundial ainda não estão solucionadas como o foram na Europa.
A península coreana constitui outra região sensível e importante na Ásia, sobretudo com as possibilidades de reunificação e da associação econômica mais íntima com as regiões vizinhas, em particular a cooperação com a China. O primeiro aspecto é que a crise econômica do regime socialista norte-coreano introduziu novas dimensões no jogo regional e coincidiu com as pressões norte-americanas para a abertura da economia sul-coreana. Neste sentido, Pyongyang tem usado a questão nuclear, a tensão calculada com o sul e os riscos que o colapso do regime poderia produzir (sobretudo após a morte do líder Kim Il Sung) como moeda de troca na negociação de um acordo geral que permita terminar com o isolamento do país, apesar do ingresso das duas Coréias na ONU em 1991. Sem que a estrutura sócio-econômica do país tenha sido alterada, o governo norte-coreano tem atraído investimentos estrangeiros para o país, através do estabelecimento de joint-ventures e da abertura de uma Zona Econômica Especial para este fim junto ao Rio Tumen, no extremo norte do país. Ainda em estágio de implantação, esta tem recebido até investimentos sul-coreanos.
A unificação das Coréias, por mais contraditório que possa parecer, é percebida pelo Japão e pelos EUA como uma possível fonte de novos problemas, dependendo do perfil de que possa vir a se revestir. O desenvolvimento sul-coreano atingiu hoje um nível tal, que o país começou a ser visto como um concorrente pelo Japão, assumindo também formas próprias que não são do agrado de Washington, como a crescente vinculação com a economia chinesa, desde o recente restabelecimento de relações entre os dois países. Além disso, a unificação da península criaria uma nova potência regional de porte demográfico, econômico e militar (possivelmente também nuclear). Daí as crescentes tensões entre Seul e Tóquio, expressas em questões como o litígio sobre as ilhas Tok Do, ou Take Shima e de problemas específicos remanescentes da Segunda Guerra Mundial.
A vida política da Coréia do Sul tem demonstrado a determinação de boa parte da sociedade em rechaçar uma inserção econômica internacional nos moldes propostos pelos EUA, bem como de negociar uma reunificação da península dentro da perspectiva dos interesses locais. Neste aspecto, parecem convergir desde o movimento estudantil até setores importantes do empresariado. Assim, a tensão entre as duas Coréias envolve aspectos sutis não considerados pela versão apresentada pela mídia, como também os interesses dos atores externos de grande porte (Japão, EUA e China) são muito mais complexos do que poderiam parecer. Como se conhece pouco a situação das Coréias, continua-se a percebê-la equivocadamente pela ótica da Guerra Fria.
Num plano mais geral, a situação da Ásia encontra-se marcada por uma série de contradições. Os países asiáticos, mesmo a China, continuam favoráveis à manutenção da presença militar americana na região, pois ela garante a segurança regional a um custo reduzido e, ainda, no caso de Beijing, justifica um acercamento entre os asiáticos para conter o "hegemonismo" de Washington na área. Trata-se de uma postura defensiva que acaba, em certa medida, por legitimar a China aos olhos de seus vizinhos. Contudo, as nações asiáticas rechaçam as pressões econômicas e as ingerências políticas norte-americanas, tanto em assuntos internos como externos, que constituiriam justamente os temas mais importantes para a Casa Branca, já que seu poder bélico não é utilizado explicitamente.
As ações que os Estados Unidos desenvolvem na região, devido à necessidade de evitar o surgimento de pólos de poder e de desenvolvimento autônomos na Ásia, conduzem este país a uma série de atitudes, as quais acabam favorecendo uma razoável acomodação das divergências de Beijing com seus vizinhos, como no caso dos contenciosos fronteiriços e das ilhas Spratli. Os EUA têm procurado estabelecer um cerco geopolítico à China, como bem o demonstram os acordos de Washington com a Mongólia, além de fomentar o separatismo no Tibete e em Taiwan, com apoio ao discurso independentista, como se observou nas eleições taiwanesas de 1996.
Os Estados Unidos também parecem dispostos a instrumentalizar política e economicamente a Índia e o Vietnã como parte de sua estratégia de isolamento da China e de contenção de seu desenvolvimento, tirando proveito da rivalidade destes dois países em relação a Beijing. Contudo, Washington parece ignorar que tanto Nova Delhi como Hanói definem-se estrategicamente pelos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica e pelo ideário de Bandung, tal como a China. Assim, apesar de divergências concretas, estes três importantes países asiáticos possuem muitas perspectivas e interesses comuns de longo prazo. A evolução de seu inter-relacionamento recente parece apontar nesta direção.
As pressões que os Estados Unidos também exerceram sobre o regime do General Suharto, devido à violação dos direitos humanos e ao não respeito das regras da democracia, além de apoiar a oposição e de ressuscitar a questão do Timor Oriental, preocuparam os demais governos asiáticos e criaram um clima de desconfiança em relação ao Ocidente, o que foi reforçado pela crise asiática. Isto adquire maior relevância pelo fato das nações asiáticas perceberem que os alvos da investida norte-americana possivelmente a construção de uma indústria aeronáutica (impulsionada pelo Ministro Habib) e automobilística nacionais e, em última instância, o próprio projeto de desenvolvimento indonésio. Qualquer política deliberada de intromissão externa que questione os regimes autoritários e os padrões locais de desenvolvimento acaba por ser percebido como uma ameaça coletiva aos asiáticos.
Os vínculos diretos e indiretos de Washington com movimentos islâmicos fundamentalistas no Arco das Crises (articulados durante a guerra do Afeganistão), por sua vez, preocupa sumamente os países asiáticos, que enfrentam atualmente problemas com relação a minorias étnicas e religiosas. Além disso, o fato dos EUA também apoiarem o Paquistão no plano regional, acaba empurrando a Índia para uma maior aproximação com a China, a Rússia e o Irã.
Outro fenômeno que ainda não recebeu a devida atenção, é o recente estabelecimento de vínculos externos do pólo asiático com outras regiões. As relações com os EUA e o NAFTA são tão intensas quanto estruturalmente contraditórias, como foi visto anteriormente. Trata-se, então, de analisar justamente as novas relações que a Ásia tem buscado enquanto pólo que almeja uma maior autonomia. Desde as Conversações Marco Polo, que a União Européia iniciou em Bangkok em março de 1996 com a ANSEA e outros países asiáticos, tem crescido a cooperação diplomática e econômica entre estes dois pólos. A iniciativa deu origem ao ASEM (Asia-Europe Meeting), que se desenvolve regularmente desde então.
Para muitos analistas está ocorrendo a emergência da Eurásia como região geopolítica e geoeconômica. Dentre os três grandes centros de desenvolvimento do hemisfério Norte, sempre houve vínculos estreitos através dos Oceanos Pacífico e Atlântico, associando a economia da América do Norte com a da Ásia Oriental e da Europa Ocidental, respectivamente. Mas desde a derrocada do sistema colonial, Ásia e Europa têm caminhado separadas, o que agora começa a mudar. A possibilidade de que um triângulo venha realmente a se formar, poderia alterar o equilíbrio internacional.
A Rússia, por sua vez, ainda que tenha se tornado um parceiro qualitativamente inferior à antiga URSS, tem mantido com países-chave da Ásia uma crescente cooperação em campos particularmente sensíveis, como também foi visto anteriormente. Além disso, este país constitui precisamente o elo terrestre que serviria de base para a constituição de um grande espaço econômico eurasiano. A Rússia, desde que Evgueni Primakov tornou-se primeiro ministro, mas especialmente desde que Vladimir Putin tornou-se presidente, passou a reorganizar-se, a crescer economicamente, a recuperar parcialmente sua capacidade militar e a desenvolver um significativo protagonismo diplomático. Além da Parceria Estratégica estabelecida com a China, ambos países criaram o Grupo de Cooperação de Xangai, um acordo de caráter econômico e de segurança, que engloba igualmente o Cazaquistão, o Usbequistão, o Tadjiquistão e o Kirguistão. A Ásia central possui recursos em gás e petróleo que são indispensáveis ao desenvolvimento chinês.
Por fim, importantes países asiáticos individualmente e organizações regionais como APEC, PECC, ANSEA, entre outras, têm buscado um maior acercamento com países-chave do Terceiro Mundo, particularmente com os chamados Mercados Emergentes, como o conjunto da África Austral nucleado pela África do Sul pós-Apartheid e com o Mercosul, particularmente com o Brasil. Assim, o Oceano Índico estaria se constituindo numa espécie de rota de ligação com o Sul. A cooperação mais estreita com estas regiões, apesar de atualmente possuir um impacto limitado no plano puramente econômico, possui um potencial promissor de médio e longo prazo, além de constitui um elemento estratégico nas disputas entre os pólos desenvolvidos do hemisfério Norte. Não se pode deixar de considerar que, pelo fato do pólo asiático constituir em linhas gerais uma área em desenvolvimento, existe um amplo espaço para o estabelecimento, entre este e os Mercados Emergentes antes referidos, de uma parceria estratégica capaz de influenciar o futuro perfil da ordem internacional emergente.
Paulo Fagundes Vizentini