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14 de janeiro de 2004

Cúpula das Américas: os EUA em busca dos amigos afastados

Decorridos quase três anos desde a última Cúpula das Américas, realizada em Québec em abril de 2001, o mundo está completamente diferente e as relações entre os Estados Unidos e os países latino-americanos, bastante desgastadas. Naquela época, embora a recente ascensão de George W. Bush ao poder prenunciasse problemas nas relações hemisféricas, ainda se vivia o legado da era Clinton e sua última iniciativa regional, a proposta de antecipação das negociações da ALCA e sua entrada em vigor em 2002, o que, obviamente, não seria aprovado. A manobra destinava-se a, aparentando ser uma concessão norte-americana, legitimar o Acordo, dentro do prazo estabelecido de 2005.

Tive a oportunidade de participar da Cúpula de Québec e ver o presidente Bush sorrir jocosamente quando o discurso crítico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso era traduzido. Já se prenunciava o desacordo que viria a se manifestar posteriormente. Depois, vieram os atentados de 11 de setembro e a chamada Guerra ao Terrorismo, com seu lema "quem não está conosco, está contra nós". Paralelamente, consolidava-se uma agenda unilateral, inclusive no plano econômico. Inúmeras decisões protecionistas levaram empresários e governos latino-americanos a colocar em dúvida o real caráter da ALCA: um verdadeiro acordo de livre comércio ou uma estratégia para reverter o enorme déficit comercial dos EUA?

Veio o colapso financeiro da Argentina, país intimamente aliado de Washington, e nenhuma ajuda foi concedida, o que também serviu de alerta para as elites latino-americanas. Ao mesmo tempo, a Casa Branca exigia apoio diplomático automático para suas ações militares contra o Iraque, promovidas à revelia da ONU e da maioria da comunidade internacional. Aí, mesmo aliados americanos como México e Chile não os apoiaram. A eleição de Lula foi seguida pela de Kirchner, e a América Latina começou a falar com voz própria, em defesa de seus interesses, enquanto a situação econômica se agravava. A discreta rebeldia latino-americana, desalinhando sua diplomacia em relação a Washington, gerou um novo patamar de negociação hemisférica, inclusive porque o Brasil passou a desenvolver, simultaneamente, uma intensa diplomacia multilateral e global.

Enquanto Washington critica a decisão argentina de reatar relações com Cuba e acusa Castro e Chávez de disseminar um sentimento anti-norte-americano no continente (como se eles tivessem esse poder), o New York Times comenta que a América Latina já não é mais "dócil e cooperativa" (sic) como antes. Medidas como uma anistia temporária a trabalhadores estrangeiros ilegais nos EUA, como forma de organizar sua posterior expulsão, causaram desconforto, especialmente no México. Pior foi a decisão de fichar os cidadãos de vários países que ingressam nos Estados Unidos, entre os quais os latino-americanos. Afinal, como podemos ter um mercado comum se nossos cidadãos são classificados como suspeitos, é o que muitos se perguntam. O Brasil, em nome do princípio da reciprocidade, retaliou a medida, fazendo a mesma exigência. Agora, a decisão da Casa Branca de classificar as pessoas segundo cores e códigos, que sinalizam sua "periculosidade", não deixa de lembrar a Alemanha dos anos 30, causando enorme mal-estar.

Finalmente, os mais importantes países latino-americanos desejam discutir temas sociais, desenvolvimento com eqüidade e governabilidade, e não temas de segurança e a ALCA. Já Bush, que é candidato à reeleição este ano, deseja negociar a ALCA e reaproximar-se dos países da região, o que não será fácil devido à divergência de agendas entre o norte e o sul do hemisfério. De qualquer maneira, o que é tremendamente positivo é que o novo posicionamento dos grandes protagonistas latino-americanos criou espaço para uma verdadeira negociação com a Casa Branca. Superada a fase de aceitação passiva da agenda norte-americana, abre-se espaço para que os EUA, até então totalmente absorvido pelos problemas do outro lado do mundo, tomem consciência da real situação hemisférica e promovam os desejáveis reajustes a partir da Cúpula das Américas de Monterey.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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