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6 de janeiro de 2004

A Líbia afasta-se do "Eixo do Mal"

A decisão do líder líbio Muammar Khadafi de renunciar à construção de armas nucleares e biológicas, permitindo inclusive inspeção internacional, surpreendeu muitos analistas das relações internacionais. Contudo, esse gesto se inscreve numa lógica de aproximação com o Ocidente, e em particular com os Estados Unidos, que o regime inscrito por Bush como integrante do "Eixo do mal" já vem promovendo a um certo tempo, que o público moldado por clichês jornalísticos não teve condições de compreender.

A Líbia é um país desértico e pouco povoado (5 milhões e meio de habitantes) mas extremamente rico em gás e petróleo, cujas jazidas foram descobertas nos anos 60. O Rei Idriss, corrupto e pró-ocidental, foi deposto em setembro de 1969 pelo jovem coronel Khadafi. Esse filho de beduínos, que realizou estudos militares em Londres, fechou as bases militares anglo-americanas em seu país e reduziu a presença das multinacionais na exploração do petróleo. De orientação nasserista (tardia, pois esse movimento agonizava no mundo árabe), ele introduziu um original regime de democracia direta, baseado em comitês populares, que elegem o Congresso Geral do Povo, órgão supremo do país. Um islã laicizado, socializante, modernizador e desenvolvimentista foi esboçado no famoso Livro Verde (1973), que condenava simultaneamente o marxismo e o capitalismo.

Além de estabelecer um Welfare State, promovendo o bem estar social, o excêntrico líder líbio abriu 1500 poços artesianos e criou rios permanentes (alimentados por lençóis subterrâneos), num país que não possuía nenhum, irrigando 2 milhões de hectares que foram dedicados à agricultura. Mas sua política internacional era errática e desconcertante, pois estava atrasada em vinte anos. Jogando com os enormes recursos financeiros do país, ele buscou, sem sucesso, estabelecer federações com a Síria, o Egito e a Tunísia nos anos 70. Aliado da URSS, ele então se aproximou dos regimes mais radicais, como Sudão, Iêmen do Sul e Etiópia, além de movimentos políticos extremistas (inclusive concedeu asilo a Idi Amin), numa ativa diplomacia anti-ocidental e anti-israelense.

Mas seus fracassos e guinadas bruscas marcaram a diplomacia voluntarista que constrangia seus próprios aliados. Do dia para a noite, ele mudava de lado, aproximando-se do inimigo de ontem, como fez com o Marrocos pró-ocidental, depois de haver apoiado os guerrilheiros da Frente Polísário do Saara Ocidental. Bloqueado no mundo árabe, nos anos 80 ele se voltou para a África e América Central, envolvendo-se nos conflitos locais, particularmente na guerra civil do vizinho Chad, com o qual tinha um litígio fronteiriço (a faixa de Azou).

O resultado foi que Reagan iniciou desde 1981 uma cruzada contra Khadafi, com incursões aero-navais em águas líbias, que culminaram no bombardeio de 1986, do qual o líder escapou milagrosamente. O atentado ao Boeing da Pan-American (atribuído a agentes líbios), que caiu sobre Lockerbie (Escócia), matando todos os ocupantes, valeu à Líbia um isolamento internacional. Em 1992 a ONU aprovou um embargo que foi implementado por quase todas as nações, mas particularmente pelos Estados Unidos, quando ele se recusou a entregar os acusados do atentado para serem julgados na Escócia.

Sentindo que havia ido longe demais e observando o que se passava com o Iraque desde 1990-91, ele passou a fazer sinais de boa vontade. Desde 1993 a economia passou a ser liberalizada (do que empresas européias se beneficiaram) e o sistema político começou a ser descentralizado, enquanto presos políticos eram libertados. No mesmo sentido, ele expulsou dez mil trabalhadores palestinos e reprimiu movimentos fundamentalistas islâmicos que começavam a atuar no país. Também acatou a decisão da Corte Internacional de Justiça de Haia, que deu ganho ao Chad no litígio de Azou, retirando-se da região.

Em 2000 Khadafi intermediou com sucesso a libertação de turistas norte-americanos e europeus, seqüestrados pelo movimento islâmico Abu Saiaf das Filipinas, inclusive pagando o resgate. A política de privatização e atração de investimentos externos foi aprofundada em 2001 com a nomeação de um ministro da economia formado em Harvard, Choukri Ghanem. Da mesma forma, apoiou a "guerra ao terrorismo" dos Republicanos depois do 11 de setembro, não criticou o ataque americano ao Iraque e se mantém afastado da problemática do Oriente Médio. Ao mesmo tempo, Khadafi voltou-se para a África, apoiando a transformação da Organização da Unidade Africana em União Africana e prometendo fundos para projetos de desenvolvimento e infra-estrutura, o que viabilizou a nova organização. Seu filho, Seif al-Islam, tem mediado conflitos africanos e promovido a auto-denominada Diplomacia Associativa e Humanitária.

Se em janeiro de 2003 o país, com os votos africanos, logrou ser eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos da ONU (para o qual os EUA não foram reeleitos), exerceu a função com moderação, buscando legitimar sua reinserção na comunidade mundial. Ao mesmo tempo chegou a um acordo sobre a questão do atentado de Lockerbie, indenizando as partes interessadas e aceitando a punição dos culpados. Finalmente, como dissemos no início, em dezembro último renunciou ao seu programa de armas de destruição em massa (nucleares e biológicas), permitindo a inspeção dos órgãos internacionais competentes e solicitando apoio norte-americano. Assim, parece que a Líbia vai ser retirada da lista de integrantes do "Eixo do Mal" e Khadafi manterá seu regime reformado, talvez tornado "hereditário".

Paulo Fagundes Vizentini


 
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