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29 de dezembro de 2003

Tendências internacionais para 2004

As relações internacionais em 2004 devem ser marcadas pelos desdobramentos dos acontecimentos de 2003 e sua interação com as estratégias anteriormente traçadas para o ano que se inicia. Nesse sentido, pode-se considerar que a situação internacional foi marcada por dois processos convergentes, a invasão do Iraque pelos anglo-americanos e a continuidade da recessão internacional. Com relação ao primeiro aspecto, suas conseqüências mais marcantes foram o surgimento de uma rivalidade dentro do campo Ocidental e uma vitória militar americana com pesados custos político-militares.

A oposição entre os Estados Unidos e o Reino Unido de um lado e a França e Alemanha de outro (com apoio da Rússia e, mais discretamente, da China) produziu o bloqueio da OTAN e uma cisão que permaneceu depois da guerra e se reforçou. Por outro lado, a ONU e a maioria da opinião pública mundial condenaram a ação americana considerando que ela nada teve a ver com o combate ao terrorismo (até hoje não foram provadas as acusações sobre a posse de armas de destruição massiva pelo Iraque). Ao lado desse elevado custo político, a invasão, que fora fácil, foi sucedida por uma ocupação extremamente custosa militarmente, seja para os americanos, seja para os contingentes numericamente simbólicos dos aliados. A prisão de Saddam em nada reduziu a ação da resistência.

Paralelamente, a convergência do unilateralismo das ações americanas, desde o início do governo Bush, com a recessão mundial e o retorno ao protecionismo pelos países ricos, tiveram o efeito de desgastar os governos partidários de Washington e da globalização neoliberal na periferia. Assim, na maioria das eleições triunfaram propostas críticas, como no Brasil, enquanto outros países começaram a ter um maior protagonismo internacional, como a Índia e a África do Sul. Assim, a força da ação americana foi contrabalançada pela reação de outros atores internacionais.

Mas 2004 é um ano decisivo, devido às eleições americanas. É praticamente impossível fazer qualquer previsão sobre o resultado das mesmas. De um lado Bush vem enfrentando crescentes problemas, mas os Democratas não conseguiram ainda consolidar uma candidatura viável, Na verdade, tudo dependerá menos dos fatos em si do que da capacidade de jogar com os mesmos na mídia. Também dependerá da ocorrência ou não de novos atentados, os quais podem favorecer os Republicanos. Mas nem uma vitória Democrata garantiria uma mudança profunda, nem a reeleição de Bush significa que nenhuma alteração de curso seja possível. Basta lembrar o segundo mandato de Ronald Reagan nos anos 80.

Um dos lugares onde uma alteração é possível, embora sempre de uma forma surpreendente, é no Oriente Médio, particularmente no conflito israelense-palestino. 2004 também é o ano em que deve ser concluída a negociação para o estabelecimento da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), em relação à qual o panorama é bastante incerto. De qualquer maneira, as mudanças que porventura venham a ocorrer no plano internacional deverão ter um caráter transitório, pois decorrem mais das manobras necessárias à eleição norte-americana do que de uma alteração significativa do plano internacional.

Enfim, os conflitos vão continuar, especialmente no Afeganistão e no Iraque, e a situação econômica não deverá mudar significativamente (ao menos para melhor...). Mas o tratamento dado pelos meios de comunicação aos fenômenos político-militares e econômicos no ano que se inicia, poderá dar aos mesmos um colorido fake, até que o quadro presidencial americano esteja definido. Depois, as contradições que têm movido a vida internacional mostrarão novamente a sua face. Ocorrerão acomodações parciais, mas sem que os problemas de fundo sejam resolvidos, e os novos fatos mais impactantes ainda estarão enquadrados na mesma lógica que tem movido o mundo desde 2001.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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