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22 de dezembro de 2003

Um ano de política externa do governo Lula

A visita a países árabes do Oriente Médio e o encontro do Mercosul, com a assinatura de acordos com países andinos, vieram coroar o primeiro ano do governo Lula no plano da política externa. Apesar de algumas críticas localizadas e pouco duradouras, essa tem sido a área onde a ação governamental considerada mais positiva pela maior parte dos atores políticos e pela sociedade. Alguns acusaram o governo, em seu início, de buscar "cubanizar" a política exterior, além de empregar outros estereótipos. Mas, afinal, descontada a retórica, pró e contra, em que consistiu a diplomacia brasileira em 2003?

Como disse anteriormente, o atual curso da política externa brasileira teve início já em meados do governo Fernando Henrique Cardoso. Mas o ex-presidente não possuía os requisitos para uma mudança que ultrapassasse um tímido discurso crítico, o que coube ao atual mandatário. Em primeiro lugar, o governo Lula devolveu ao Itamaraty a posição estratégica que anteriormente ocupara na formulação e execução da política exterior do Brasil, pois FHC dominara a parte política ("diplomacia presidencial"), o ministro Malan a agenda econômica internacional, restando ao Ministério das Relações Exteriores apenas a parte técnico-burocrática das negociações e receber as críticas.

Evidentemente Lula desenvolve uma intensa agenda internacional, mas como porta-voz de um projeto que transcende objetivos de projeção pessoal e adesão subordinada à globalização. Aliás, esta é a grande diferença: o desalinhamento da política externa em relação ao "consenso" liberal norte-atlântico como forma de recuperar a capacidade de negociação. Ao aceitar previamente os postulados e agendas dos países desenvolvidos, não havia muito que negociar, apenas adaptar-se (desde os anos 70 FHC criticava o desenvolvimentismo em suas conferências nos EUA). Visto pela perspectiva do G-7, por que conceder alguma coisa a quem já aceitou seu projeto? Ironicamente, hoje o Brasil tem melhor diálogo com Washington e uma diplomacia mais respeitada, com capacidade de negociação.

Outro ponto importante é que o Brasil age com otimismo e vontade política, criando constantemente fatos políticos na área internacional. Anteriormente tínhamos uma baixa auto-estima, pois os governos Collor e Cardoso viam o país como atrasados em relação aos ajustes demandados pelos países ricos. Agora, ao contrário, o país se considera protagonista de mesmo nível, com capacidade de negociação e portador de um projeto que pode, inclusive, contribuir para inserir a agenda social na globalização. Isto capacita o país para iniciativas como o ingresso num Conselho de Segurança da ONU reformado, como membro permanente.

Finalmente, o Itamaraty, em lugar de concentrar-se na tentativa de cooperação com países em relação aos quais somos secundários e em relação a mercados grandes, mas saturados, buscou os espaços não ocupados. Ao nos aproximarmos dos vizinhos sul-americanos, especialmente os andinos, da África Austral, países árabes e de gigantes como a Índia, China e Rússia, nossa diplomacia logrou um avanço imediato e impressionante, com grandes perspectivas comerciais. A presença de empresários e de convidados argentinos na delegação presidencial é uma marca importante na sensibilidade da nova diplomacia.

Além disso, a cooperação com esses países permitiu a construção de alianças de "geometria variável" como o G-3 e o G-20, com influência marcante no plano global. Em lugar de uma diplomacia de forte conteúdo ideológico, o Brasil desenvolveu uma postura ativa e pragmática, buscando aliados para cada problema, contestando sem desafiar os grandes (como nas negociações comerciais e o desrespeito anglo-americano em relação à ONU), respeitando sem respaldar a posição de países problemáticos como Venezuela, Cuba, Líbia e Síria, por exemplo.

Enfim, o Brasil desenvolveu uma diplomacia própria, adequada à era da globalização, com um projeto de desenvolvimento para o país. O problema é que ela desperta imensas expectativas, e somente poderá dar resultados se em 2004 o desenvolvimento econômico e a geração de empregos (que nem sempre estão juntos) forem positivos. Ajustes internos e esquemas externos foram realizados para tanto, mas variáveis internacionais são importantes. Dependemos ainda de um mundo muito instável para que este projeto dê resultados positivos. Sem crescimento não conseguiremos consolidar os grandes avanços logrados na área sul-americana, base de nossa inserção internacional. E 2004 é ano eleitoral nos Estados Unidos...

Paulo Fagundes Vizentini


 
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