Patético é o adjetivo que pode ser invocado para o fim político de Saddam Hussein, capturado pelas forças americanas no dia 14 de dezembro de 2003. Oculto num túnel insalubre em sua região natal, Tikrit, com uma caixa de dólares (a moeda do inimigo) e algumas armas leves, o abatido ditador iraquiano não ofereceu resistência. Trata-se de uma vitória que Bush necessitava com urgência, após meses de resistência armada iraquiana, de incompetência na reconstrução do país, de desmoralização na demora em capturar o líder inimigo e, recentemente, pelas reações internacionais à exclusão das empresas de todos os países não participantes da guerra no que tange aos contratos de reconstrução do Iraque.
A prisão de Saddam significa que a resistência e os atentados vão findar? Evidentemente que não, embora uma parte dela deva se desarticular. Como declararam alguns, a resistência não é em favor de Saddam, mas contra o invasor e ocupante. Por outro lado, como ficou claro, o ex-líder iraquiano não mantinha um controle sistemático sobre os atos de seus simpatizantes, até porque isso poderia facilitar sua prisão. A única maneira dos ocupantes americanos evitarem suas perdas é conseguir criar um regime estável nas mãos dos próprios iraquianos, o que não parece fácil, visto as deserções no novo exército e os assassinatos e ameaças aos membros da polícia criada pelos ocupantes.
Saddam deve ser julgado por seus inúmeros crimes contra seus oponentes e, mesmo, contra seus adeptos, bem como por suas violações ao Direito Internacional. Mas isso não será fácil, politicamente, pois ele pode se converter num elemento indesejável e embaraçoso. Não podemos esquecer que entre 1979, quando assumiu o poder, e 1990, quando invadiu o Kuwait, ele cooperou com o Ocidente, particularmente com os Estados Unidos, na contenção do Irã. Assim, muitas das armas foram fornecidas pelas democracias ocidentais, que também foram coniventes com atos como o ataque com armas químicas contra os curdos.
Se o julgamento ocorrer, e publicamente, ele pode se defender comprometendo inúmeros líderes ocidentais e, de muitas maneiras, mostrando que denúncias sobre a posse de armas de destruição massiva durante os anos 90 e na conjuntura que antecedeu à guerra, eram falsas. Mas ele também pode estabelecer algum pacto com seus captores, recebendo vantagens em troca do seu silêncio e de informações de que pode dispor e que interessam aos Estados Unidos, e ficar em alguma prisão de luxo, afastado da opinião pública. Foi exatamente o que ocorreu com o ditador panamenho Manuel Noriega, traficante e ex-agente da CIA, quando era dirigida por Bush sênior, e com o terrorista Carlos, o Chacal, entregue pelo Sudão à França.
De qualquer maneira, George W. Bush logrou completar a obra de seu pai, derrubando e, posteriormente, capturando Saddam Hussein. Certamente isso ajudará na campanha eleitoral, embora não mude a difícil situação criada pela presença americana no Iraque e no Afeganistão, onde ocorre uma deterioração militar e política. Mas o que importa é a percepção da opinião pública norte-americana, moldada pela mídia, que saberá explorar a prisão de Saddam.
Saddam Hussein nasceu em 1937 numa família de camponeses pobres e aos vinte anos de idade ingressou no partido Baas, nacionalista pan-árabe, laico (isto é, não religioso) e modernizador. Teve de exilar-se no Egito, onde estudou Direito, e passou vários anos na prisão em seu país. Quando o partido tomou o poder em 1968, projetou-se como um dos líderes civis do mesmo, convertendo-se em eminência parda do regime, que passou a liderar formalmente desde 1979. Determinado, cruel e pragmático, Saddam consolidou o poder e levou o regime para uma linha mais conservadora à direita (com fortes tendências nepotistas), afastando o Iraque da União Soviética. Abandonado pelo Ocidente e pelas petromonarquias após o fim da guerra contra o Irã de Khomeini, seu inimigo mortal, e da Guerra Fria, ele se voltou contra eles, atacando o Kuwait. Realmente, um personagem com uma trajetória complexa e ambígua.
Paulo Fagundes Vizentini