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1º de dezembro de 2003

A crise da Geórgia no contexto geopolítico

A renúncia do presidente da Geórgia, Eduard Shrvadnadze, após semanas de protestos populares, reabriu uma crise política até hoje sem solução, numa das regiões mais sensíveis do ponto de vista geopolítico, o Cáucaso. Essa ex-república soviética pagou um elevado preço na transição pós-comunista, pois sua economia encontra-se em ruínas (queda de mais de 50% do PIB), um quinto da população emigrou e a expectativa de vida caiu drasticamente. Com a desintegração da URSS, a Geórgia tornou-se independente, governada por um dissidente direitista, Gamsakurdia, que estabeleceu um regime ultra nacionalista, que tratava as etnias não georgianas como cidadãos de segunda categoria.

Este pequeno povo, cujo filho mais conhecido foi o líder soviético Josef Stalin, é de religião cristã ortodoxa, enquanto as minorias ossétias, abkhazes e adjárias são muçulmanas. O governo georgiano afastou-se da Rússia e não aderiu à Comunidade de Estados Independentes (CEI), criada por Moscou com as demais ex-repúblicas soviéticas (menos os três Estados bálticos). Teve início uma guerra civil, com moderados georgianos e os três pequenos povos muçulmanos lutando, com discreto apoio russo, contra o governo de Gamsakurdia. Enquanto isto, a vizinha Armênia, aliada de Moscou, entrava em guerra pelo controle do enclave de Nagorno-Karabak com o Azerbaijão, país rico em petróleo e aliado ocidental.

Um ano depois de ter assumido o poder, Gamsakurdia foi derrotado, e o último ministro das relações exteriores de Gorbachov, Chervadnadze, assumiu a presidência. Mas, após mais um ano de guerra civil, sob pressão dos russos e dos movimentos separatistas foi obrigado a firmar um acordo, ingressando na CEI em fins de 1993. A situação foi congelada, com as três regiões escapando ao controle direto do governo central, nos marcos de um cessar-fogo. Mas a Geórgia, que melhorara as relações com Moscou, se convertia num instável elemento de equilíbrio no Cáucaso, enquanto a Rússia começava a enfrentar o separatismo checheno, no seu lado da cordilheira caucasiana, que separa a Europa da Ásia.

Em doze anos no poder, a situação social e política permaneceu ruim, e a corrupção avançou. Pior ainda, o país recebeu mil soldados americanos, no contexto da Guerra ao Terrorismo de George Bush, teoricamente para treinar as tropas georgianas. Os russos agüentaram a provocação no que julgam ser sua esfera de influência. Mas com a fraude eleitoral que caracterizou as eleições, a população obrigou Chervadnadze a renunciar, numa situação mediada pela Rússia. A presidência foi assumida interinamente pela senhora Nino Burdzhanadze, sem que a política do novo governo esteja clara. De qualquer maneira, os líderes das três repúblicas autônomas (Abkházia, Adjária e Ossétia do Sul) reuniram-se, sob os auspícios do presidente Vladimir Putin, acertando uma estratégia comum cujo conteúdo ainda é desconhecido.

De qualquer maneira, pode-se considerar que Moscou reúne seus aliados locais para tentar influenciar nos rumos do novo governo georgiano. Afinal, a região está ao lado da Chechênia e representa uma ligação terrestre com a Armênia, possui tropas americanas, é cortada por oleodutos e gasodutos estratégicos e representa um elemento fundamental no equilíbrio geopolítico entre a Rússia e os Estados Unidos na região. Moscou tenta manter certa influência sobre a república, sem entrar em antagonismo com Washington. Enfim, mais que um episódio político de uma republiqueta de segunda categoria, a crise se inscreve no quadro de uma delicada disputa geopolítica.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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