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17 de novembro de 2003
Oriente Médio: a escalada terrorista
O Oriente Médio está conhecendo uma escalada de violência, particularmente ações da resistência iraquiana e atentados terroristas. Nas primeiras três semanas de novembro de 2003 dois helicópteros norte-americanos foram abatidos, totalizando dezenas de mortos e feridos, um atentado foi cometido contra o quartel italiano no sul do Iraque, repórteres portugueses foram sequestrados, um atentado à bomba foi realizado num condomínio para estrangeiros na capital da Arábia Saudita e mais dois foram perpetrados em Istambul contra duas sinagogas, causando dezenas de mortos e feridos. Em Bagdá o quartel-general americano foi atacado duas vezes e no Afeganistão os combates se intensificam.
Além dos ataques diários às forças americanas de ocupação, sempre com vítimas fatais, a resistência iraquiana passou a lançar foguetes em hotéis que hospedam estrangeiros, bem como a um ministério edelegacias de polícia. Assim, todos que, de alguma maneira colaboram com os EUA, também se tornaram alvo, dificultando a formação de qualquer governo estável. Para completar a situação, durante a tumultuada visita do presidente George W. Bush à Inglaterra, o consulado inglês e a sede do Banco HSBC, ambos em Istambul, foram destruídos no dia 20 de novembro, o que evidencia uma estratégia de atingir os aliados americanos.
A rápida deterioração da situação na região comprova que o fim do conflito parece a cada dia mais distante. Países como Japão e Coréia do Sul, entre outros, já sinalizaram o desejo de adiarem, reduzirem ou cancelarem o envio de tropas e técnicos para colaborar na reconstrução do Iraque. A repercussão dos atentados, especialmente na Itália e Inglaterra, sinaliza um desgaste dos governos que colaboram com os Estados Unidos, enquanto os custos financeiros aumentam, num momento em que o governo Bush preparava um crescimento econômico artificial para fins eleitorais.
Mas pior que as ações terroristas tem sido as respostas (ou não-respostas) por parte de Washington e de seus aliados. A Casa Branca manifestou a determinação de transferir rapidamente o poder a um governo iraquiano, enquanto a ocupação permaneceria a cargo das tropas estrangeiras. Ora, tal medida apenas aumentará os alvos dos atentados e a confusão interna. Por outro lado, a repressão aos ataques da resistência tem demonstrado falta de coordenação e despreparo, maltratando parte da população, que se volta contra os ocupantes. Exatamente o que desejam os seguidores do deposto Saddam Hussein. Assim, os Estados Unidos têm de pagar um custo cada vez mais elevado e tornam-se prisioneiros de uma contradição insolúvel: permanecer no país tem um custo tão elevado quanto se retirar.
A resposta americana de bombardear com aviões e mísseis prédios suspeitos de um país que está ocupado, representa uma tática ineficaz, que denota falta de opções. Os soldados americanos, despreparados para uma ocupação de tipo policial, começam a manifestar sinais de fadiga e nervosismo. O mesmo fenômeno começa a se manifestar em Israel, com as forças pacifistas procurando contatos com os palestinos para negocogiar a paz, à revelia do governo, enquanto pilotos se recusam a bombardear alvos civis palestinos e alguns soldados se recusam a atuar nos territórios ocupados. A construção do muro, cercando os palestinos e retirando a maior parte de suas terras, tem igualmente um custo político interno, diplomático e financeiro cada vez maior.
Greves dos sindicatos israelenses têm se oposto aos costes nos gastos sociais, enquanto ex-líderes do Shin Beth (serviço de segurança interna israelense) manifestam-se abertamente contra a política do primeiro ministro Sharon. Segundo eles, "vamos para o desastre se não renunciarmos ao Grande Israel, se não reconhecermos de uma vez por todas que existe um outro povo que sofre e com o qual temos um comportamento vergonhoso". Até mesmo o chefe do Estado Maior, Moshe Yaalon, pediu publicamente que o governo assine um acordo de paz com os palestinos.
Assim, a situação de impasses e radicalizações está gerando uma realidade perigosa, com a multiplicação de atentados, que pode vir a dar início a um processo de desestabilização de vários países na região. A Al Qaeda descentralizou suas ações e tem agora uma frente de luta, na medida em que os EUA estão presentes na região (ver meu artigo neste site "A guerra ao terrorismo está sendo vencida?"). Mais do que nunca, a proposta da ONU, Rússia e União Européia de mediar um acordo geral na região se faz urgente, pois a situação pode vir a fugir do controle dos frágeis poderes locais.
Paulo Fagundes Vizentini
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