Um ponto destacado no programa de política externa do governo Lula era a aproximação com a África. A viagem que o presidente realizou na primeira semana de novembro, visitando São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Namíbia e África do Sul, cobriu os países de língua portuguesa da África austral e dois dos principais parceiros brasileiros da região, cumprindo a promessa. A visita é importante não apenas para as relações do Brasil com a África, mas, sobretudo, para o estabelecimento de uma associação institucionalizada entre o Mercosul e a SADC (Coordenação para o Desenvolvimento da África Austral), a área de integração nucleada pela África do Sul na parte meridional do continente.
Apesar do fato de quase metade da população brasileira ser constituída de afro-descendentes (e das semelhanças culturais comuns), do continente africano encontrar-se próximo e fazer parte do nosso cenário geopolítico e de existir uma inegável complementaridade econômica, a África sempre foi uma frente secundária (e tardia) de nossa diplomacia. O apoio ao colonialismo português e a conivência com o Apartheid (regime de segregação racial existente na África do Sul até 1992), existentes até o governo Juscelino Kubitschek e ainda no início do regime militar, comprometeu a imagem do Brasil por muito tempo.
Apenas a Política Externa Independente dos presidentes Quadros e Goulart (1961-64) e a Diplomacia da Prosperidade do General Médici (1969-74) fizeram esforços concretos de aproximação. Mas o verdadeiro início de uma nova e sistemática política africana ocorreu com o Pragmatismo Responsável do Governo Geisel. Numa atitude corajosa, a diplomacia desse presidente condenou o Apartheid e foi o primeiro a reconhecer o governo marxista do MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola, até hoje no poder), além das demais ex-colônias portuguesas.
Teve início uma intensa colaboração com os países africanos em foros multilaterais de caráter econômico, uma intensa agenda política comum e um comércio crescente que incluía bens e serviços. Mas a permanente guerra na África Austral fez com que os resultados fossem modestos. Havia uma situação difícil, que somente foi desbloqueada com o fim do regime de minoria branca na África do Sul e a eleição de Nelson Mandela em 1993. A rede de transportes e comércio da região converge para esse país, o que veio a facilitar a integração regional. Faltava acabar com as guerras civis, o que se logrou quase dez anos depois. Nesse meio tempo, o Brasil participou de forças de paz e auxiliou países da região, iniciando uma cooperação sistemática com o gigante sul-africano.
Lamentavelmente, os governos brasileiros, de Fernando Collor a Fernando Henrique Cardoso, privilegiavam apenas as relações com os países ricos e, em menor medida, com o Mercosul. Pouca atenção foi dada à proposta de Mandela de tornar seu país um membro associado ao Mercosul, formulada em 1996. Hoje, contudo, se esboça uma parceria estratégica entre Brasília e Pretória, e não apenas em relação a temas regionais, mas mundiais como o G-3 e as questões da paz e do desenvolvimento. Ambos países são fortes candidatos a membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a líderes de pólos de poder regional na conformação de um sistema mundial multipolar.
A visita de Lula, com suas bandeiras de combate à pobreza, teve grande repercussão nos países visitados, e a "gafe" na Namíbia talvez tenha sido vista como um elogio pelos cidadãos daquele país, embora um pouco mais de prudência fosse desejável. Mas a sinceridade sempre vale mais do que discursos vazios e padronizados, feitos por líderes de grandes potências, que são responsáveis por grande parte dos problemas locais, e percebidos pela população e políticos africanos como cínicos. Acompanhado de empresários, o presidente assinou acordos em várias áreas, que deverão dar frutos no futuro próximo. Mas são necessárias paciência e tenacidade na relação com a África, e principalmente continuidade, pois muitas vezes proclamamos intenções que nunca são levadas adiante nem concretizadas.
Paulo Fagundes Vizentini