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3 de novembro de 2003

A água como questão internacional

Desde o início da Revolução Industrial inglesa, no início do século 19, discute-se o problema da escassez de certos recursos naturais e da superpopulação. Malthus chegou a afirmar que a explosão demográfica levaria à fome, à guerra e ao caos. A população cresceu, atingindo atualmente mais de seis bilhões de habitantes, e o consumo de recursos naturais, especialmente os não renováveis, cresceu numa proporção ainda maior. Muito se fala sobre o esgotamento do petróleo, mas a água já começa a ser um recurso escasso, especialmente em regiões desérticas ou superpovoadas.

O volume de água existente no mundo foi sempre o mesmo, e a maior parte é esmagadoramente constituída de água salgada dos mares. A pouca água doce existente está concentrada em geleiras (especialmente polares) ou em lençóis subterrâneos. Apenas 2% do volume total é constituído por água potável na superfície, e boa parte dela é usada para fins industriais e de irrigação, que em geral são responsáveis por sua contaminação. O derretimento das calotas polares, ocasionado pelo aquecimento terrestre, dilui água doce nos oceanos salgados, diminuindo a porcentagem disponível. O desaparecimento de florestas agrava o problema, pois elas são excelentes conservadoras de água.

Israel e os países árabes produtores de petróleo, que possuem recursos econômicos em abundância, instalaram usinas de dessalinização de água marinha para abastecer parcialmente suas populações. Mas o custo desse processamento é bastante elevado. Por outro lado, a crescente concentração de populações em áreas urbanas gigantescas, implica na necessidade de ampliar o abastecimento. Desta forma, as Nações Unidas têm dedicado enorme esforço, através de conferências internacionais e de proposta de acordos multilaterais, para que os governos e as populações tomem consciência do problema e se encaminhem as devidas soluções, como o uso racional desse precioso recurso.

A obra O manifesto da água, de Ricardo Petrella (Ed. Vozes), trata dessa questão e adverte para um problema adicional: o crescente controle da água por corporações transnacionais e seu uso como mercadoria com fins lucrativos. Após resenhar os diversos acordos e conferências sobre o tema da água, propõe novas políticas. Mais de um bilhão de pessoas no mundo não dispõem de água suficiente para suas necessidades básicas, e a proporção tende a aumentar, ainda que dentro de poucas décadas a população mundial vá se estabilizar numericamente e, portanto, parar de crescer.

O problema é que, além de escassa, a água é muito mal distribuída geograficamente. A escassez concentra-se particularmente em algumas regiões, enquanto as fronteiras entre determinados países, separando os consumidores das fontes abastecedoras, geram tensões diplomático-militares. É principalmente o caso do Oriente Médio, Ásia central e norte da África, onde a construção de barragens e desvio de rios são causa de confrontos armados. O problema palestino e o conflito do Iraque possuem um forte componente geopolítico ligado aos recursos hídricos, e outros conflitos surgirão ainda na luta pela água. Especula-se que as manifestações sobre o controle da Amazônia têm muito a ver com o domínio de suas imensas reservas aqüíferas, sendo esse também o caso dos lagos canadenses e das geleiras tibetanas, onde nascem os grandes rios asiáticos.

O Brasil possui imensas reservas de superfície e subterrâneas, tendo, portanto, seus recursos cobiçados por grupos econômicos e por outros governos. Tem que cuidar, portanto, da sua correta administração, com vistas à sua conservação, ao seu desenvolvimento econômico, ao abastecimento de sua população e, possivelmente, ao seu uso comercial. As soluções para esse conjunto de desafios dependem de acordos internacionais e de políticas adequadas. De qualquer maneira, as soluções somente poderão ser encontradas no plano global, ainda que respeitando as soberanias nacionais.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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