A China, que acaba de enviar um homem ao espaço (o terceiro país a realizar tal façanha), lidera o crescimento econômico mundial há um quarto de século, levando muitos a considerar que está emergindo uma nova potência desafiante à liderança americana. Outros, contudo, enfatizam as debilidades do "Dragão chinês". Alguns visitantes ficam deslumbrados com a singularidade da cultura e a pujança do acelerado desenvolvimento, enquanto outros ressaltam o caráter predatório do mesmo, o autoritarismo do regime e dificuldades político-sociais. Mas ninguém fica indiferente e eu, pessoalmente, após duas visitas, fiquei impactado. Afinal, em que medida o "Império do Centro", uma civilização com cinco mil anos de história, pode ser considerado a nova potência do século 21?
A China é o país mais populoso do planeta, com um bilhão e trezentos milhões de habitantes, e o quarto maior em extensão territorial, com 9,5 milhões de km² (o Brasil tem 8,5 milhões de km²). Trata-se do único país em desenvolvimento que se encontra no centro do poder mundial, com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU (portanto com direito a veto), dotado de indústria aeroespacial e armas nucleares. Seu PIB, somado ao território de Hong Kong, já está nivelado ao do Japão e se se mantiverem as atuais taxas de crescimento, deverá alcançar o dos EUA em menos de duas décadas. Mas o país ainda não possui uma atuação em escala planetária, e nem o deseja.
Por volta do século 15, a China era a civilização mais avançada do mundo, conhecendo posteriormente uma estagnação. Após as Guerras do Ópio, desencadeadas pelos ingleses na década de 40 do século 19, o país entrou em guerra civil e desagregação por um século (a República foi proclamada em 1911). Em 1949 os comunistas derrotaram seus adversários (que se refugiaram em Taiwan) e proclamaram a República Popular da China. Mao Zedong (Mao Tse-tung) teria então declarado que "a China está novamente de pé e jamais voltará a se curvar". Foram necessários vinte e cinco anos para consolidar o regime e, em 1971, a China reaproximou-se dos EUA e passou a ocupar o lugar do país no CS da ONU.
Em 1978 Deng Xiaoping, sucessor de Mao, lançou a política de reformas, modernização e abertura, visando aprofundar a industrialização do país. Tal estratégia apoiava-se em dois princípios: a noção de Um país, dois sistemas (pregando a reconciliação nacional, visando recuperar Hong Kong e Taiwan) e a de Economia socialista de mercado (descentralizando o planejamento e unificando o mercado interno). Desde então, a economia passou a crescer a taxas de aproximadamente 10% ao ano (8% após a crise asiática de 1997-98). O país passou a ocupar a posição de maior receptor de investimentos do mundo e ingressou na OMC no início do século 21.
Com o fim da Guerra Fria, a aliança sino-americana converteu-se numa discreta rivalidade, pois Washington perdeu o interesse estratégico, uma vez que a URSS desaparecia como opositora. Mais que isso, os EUA, com enormes déficits comerciais, passaram a atacar o modelo de Estado desenvolvimentista asiático (inclusive o japonês e o sul-coreano) e a criticar o regime socialista chinês, que sobreviveu (reformado) à queda da União Soviética. A repressão ao movimento da Praça da Paz Celestial (Tiananmen), a questão do Tibete, o problema de Taiwan e dos Direitos Humanos passaram a ser instrumentalizados, com objetivos político-diplomáticos e econômico-comerciais. Mas a China procurou conservar boas relações com os EUA, por razões econômicas, mesmo quando Washington passou a defender o chamado Escudo Anti-Mísseis, iniciativa visivelmente voltada contra Beijing (Pequim).
Temerosos da integração asiática que o Japão passou a liderar desde 1985, quando foi forçado a valorizar o Yen (Acordos Plaza), os Estados Unidos trataram de esvaziar este processo, condenando a economia japonesa a uma longa estagnação. Mas ao agirem assim, os americanos provocaram duas conseqüências inesperadas: fizeram o Japão investir ainda mais na região e criaram condições para que a China passasse a liderar o movimento de integração asiática. Este processo se aprofundou com a capacidade de resistência chinesa frente à crise asiática. Até 2010 Beijing deve concluir a implantação de uma área de livre comércio envolvendo o sudeste e o nordeste asiático. A China estabeleceu com a Rússia uma aliança estratégica e ambos países criaram a Organização de Cooperação de Xangai, um acordo econômico e de segurança, juntamente com quatro das repúblicas da Ásia central.
Evidente que a situação interna da China possui certas fragilidades, o Japão vacila em aceitar a liderança chinesa e a situação mundial com o advento do governo Bush guarda mil perigos (daí a forma discreta como Beijing tratou o problema do Iraque). Mas trata-se de uma tendência que vem se configurando gradualmente. A China apóia a reforma do Conselho de Segurança (e a inclusão do Brasil), a estruturação de um sistema internacional multipolar e uma política de paz, soberania e desenvolvimento, de acordo com os chamados Cinco Princípios de Coexistência Pacífica, formulados por Chu En-lai nos anos 50.
Mas para que tudo isto se concretize, a China necessita consolidar seu desenvolvimento, o que levará mais uma ou duas décadas. Assim, sua prioridade é garantir as condições internacionais necessárias para tanto, devendo lidar com o gigante americano com a paciência típica dos asiáticos. Enquanto isto a renda per capita cresce, a sociedade se moderniza e se democratiza de baixo para cima, embora não no padrão liberal que vigora no Ocidente, pois ele se baseia na primazia da noção de indivíduo, que não faz parte da tradição asiática.
Paulo Fagundes Vizentini