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20 de outubro de 2003

A crise da Bolívia e sua dimensão internacional

A renúncia do presidente Gonzalo Sanchez de Lozada, após quase duas semanas de protestos, com dezenas de mortes, possui um grande significado internacional. A situação social da Bolívia, com um elevado percentual de pobreza, tem sido um caldo de cultura para a instabilidade política, após décadas de instáveis regimes ditatoriais. Estabilizada a democracia no país, os ajustes neoliberais dos anos 1990, especialmente o promovido durante o primeiro mandato de Sanchez de Lozada, aprofundou o problema, pois fechou grande parte das minas do país e procurou restringir o cultivo de coca, seguindo instruções norte-americanas. Estas duas atividades eram responsáveis pelo sustento da maioria das famílias bolivianas.

A eleição de Lozada para um novo mandato, ocorrida no ano passado, revelou a precariedade do sistema eleitoral vigente e frustrou os apoiadores do líder da oposição, Evo Morales. Este "cocalero", líder do MAS (Movimento ao Socialismo), representante dos camponeses e índios (como ele) representa uma figura em ascensão na política boliviana. Sanchez de Lozada, de volta ao cargo, reiniciou um ciclo neoliberal tardio, quando este tipo de política começava a refluir no continente. Neste sentido, pode-se dizer que estava na contramão da história.

A Bolívia, membro da Comunidade Andina de Nações (CAN), era também associada ao Mercosul desde 1996, e vendia gás (através de um gasoduto) e petróleo para o Brasil. Mas seu governo acenava para a Alca e para os Estados Unidos, e acatou a iniciativa da construção de um gasoduto que iria até um porto chileno e, dali, para os EUA e o México. Ora, no século XIX o Chile arrancou a saída para o mar que o país possuía, através da Guerra do Pacífico (ou do Salitre), gerando um sentimento anti-chileno muito forte. Além disso, o sentimento anti-americano também é poderoso, pois as restrições ao tradicional cultivo da coca (que tem vários usos, não apenas matéria-prima para cocaína) arruinou boa parte dos camponeses.

Por outro lado, provavelmente os EUA e o México não necessitem muito do gás boliviano, sendo a iniciativa do gasoduto em grande parte uma estratégia para vincular a Bolívia ao Chile (país com fortes interesses pró-americanos) e ao Nafta, criando bases para a adesão à Alca. Desta forma, a Bolívia começaria a afastar-se do Mercosul. As organizações sindicais e oposicionistas se mobilizaram contra o presidente, que empregou as forças armadas contra a população, fortalecido pelo apoio político do presidente Bush. Quase duas semanas de violência produziram dezenas ou centenas de mortos e a paralisia do país. Abandonado por parte de seus correligionários e vendo que o exército não estava disposto a prosseguir na repressão, o presidente renunciou dia 17 de outubro, rumando para Miami.

Ao mesmo tempo em que a crise atingia seu ápice, os presidentes Lula e Kirchner lançavam o Consenso de Buenos Aires na capital argentina (em substituição ao Consenso de Washington dos anos 90), e enviavam os assessores Marco Aurélio Garcia e Eduardo Sguiglia (funcionário argentino) para mediar o conflito no país vizinho. Após alguns contatos políticos e com a renúncia de Lozada, o vice-presidente Carlos Mesa assumiu o poder. Trata-se de um personagem com pouca experiência política, que se afastou do presidente quando a crise se agravou. Ele prometeu um governo de transição, a convocação de uma Assembléia Constituinte e um referendo popular sobre a venda de gás, que dificilmente será aprovado.

O saldo internacional da crise foi favorável a uma linha diplomática que o Brasil vem desenvolvendo, pois juntamente com o Peru, agora a Bolívia provavelmente se somará ao esforço por criar um novo modelo econômico que gere crescimento e políticas sociais, além de reforçar a integração sul-americana, contrapeso importante quando as negociações da Alca estão chegando ao ponto decisivo em 2004. Assim, apenas o Chile e a Colômbia ainda mantém uma atitude reservada frente ao modelo brasileiro de integração e desenvolvimento sócio-econômico.

Paulo Fagundes Vizentini


 
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