Em outubro de 1973 o Oriente Médio e o mundo foram sacudidos pela Guerra do Yom Kippur e pelo primeiro choque petrolífero. O Egito e a Síria atacaram Israel buscando recuperar os territórios perdidos em 1967 (Golã, Sinai e Cisjordânia), por ocasião da Guerra dos Seis Dias, e chamar a atenção do Ocidente para a difícil situação dos países árabes. A devolução dos territórios ocupados, requerida pela Resolução 242 da ONU, jamais foi cumprida por Israel. Trinta anos depois, a região ainda vive esse interminável conflito, sem que a paz tenha sido alcançada.
A Guerra de 1967 marcou o declínio do líder revolucionário egípcio, Gamal Abdel Nasser, que faleceu em 1970. A crise econômica resultante do conflito fez com que o Egito perdesse sua liderança no mundo árabe, ressentindo-se do limitado apoio soviético e da insensibilidade do Ocidente, que apoiava Israel incondicionalmente. Sadat, o sucessor de Nasser, decidiu se afastar da URSS, sinalizando aos EUA o desejo de uma aliança, estratégia apoiada pela Arábia Saudita, que desejava eliminar a influência soviética e revolucionária da região. A ofensiva, desencadeada dia 6 de outubro, logrou cruzar espetacularmente o canal de Suez e recuperar parte do Sinai e as colinas de Golã. A Jordânia não participou do ataque (resguardando o flanco mais sensível de Israel), o que evidencia ainda mais que o objetivo era limitado à devolução dos territórios, e não à destruição do Estado judaico.
Os árabes se entusiasmaram, mas os EUA socorreram Israel com armamentos, através de uma gigantesca ponte aérea, que foi respondida por outra soviética, com metade do volume da americana. Israel logo recuperou o terreno perdido nos primeiros dias, decretando-se então um cessar-fogo. Num primeiro momento os países árabes produtores de petróleo (e apenas eles) reduziram em 5% ao mês a produção, num embargo aplicado aos países que apoiaram Israel e em resposta à ponte aérea americana. O embargo foi levantado em março de 1974, embora o preço do petróleo tivesse sido quadruplicado. Mas isto era também resultado da manobra das grandes companhias petrolíferas (as "sete irmãs") e de países aliados dos EUA, como o Irã do Xá Pahlevi.
Apesar de difundir um medo irracional aos seus cidadãos, os EUA e Israel colheram seus frutos, pois o Egito negociou os Acordos de Camp David (1979), recebendo o Sinai de volta em troca de reconhecer Israel e eliminar seus armamentos ofensivos. A maior ameaça militar aos israelenses desaparecia, o Egito abandonava sua "revolução" e se aliava ao Ocidente, enquanto o mundo árabe se dividia, com a expulsão do Egito da Liga Árabe (dois anos depois Sadat seria assassinado por militantes islâmicos). A influência soviética, por seu turno, foi seriamente reduzida na região.
Mas no plano mundial, os recursos do petróleo (petrodólares) permitiram aos árabes desenvolver uma diplomacia de grande envergadura, com a OLP tornando-se observadora na ONU e o chamado voto anti-sionista em 1975. Mas os petrodólares passaram também a financiar o conservadorismo no mundo árabe, a corrupção de suas elites e geraram a desagregação de suas frágeis sociedades. Sem outra legitimidade, os dirigentes voltaram-se para a manipulação do islã, o que seria útil durante a guerra contra a URSS no Afeganistão (1979-1989), mas que se voltaria contra o próprio Ocidente duas décadas depois. Trinta anos depois da impactante guerra do Yom Kippur e do primeiro choque petrolífero, ainda é difícil fazer um balanço definitivo dos seus resultados.
Paulo Fagundes Vizentini