A política externa brasileira tem conhecido notável desenvolvimento e protagonismo, superando muitas expectativas. Muitos esperavam um comportamento internacional baseado em visões ideológicas e um presidente despreparado. Mas o que se viu foi uma diplomacia dotada de sentido tático-estratégico, de visão de longo alcance, com a recuperação plena do tradicional papel do Itamaraty. Paralelamente, o carisma do presidente, tão moldado ao "jeito brasileiro", parece haver sintetizado em sua figura franca e simples as características que o mundo admira no Brasil. Gafes, quem não as comete? Podemos recordar tantos líderes de grandes potências...
Mais do que isso, contudo, o Brasil entusiasma por tentar uma alteração de rumos em seu desenvolvimento e, mesmo, no sistema mundial. Uma surpreendente unidade interna foi conseguida (ainda que não completa) no primeiro ano do governo, o que permitiu aumentar a confiança externa no país, que não sofreu nenhuma ruptura brusca ou fuga de capitais. Paralelamente, isso facilitou a ação internacional do país, num momento extremamente delicado do cenário mundial. Em lugar de vagos discursos contestatórios e de uma obediência prática, o país tem proposto medidas e concretizado as que estão ao seu alcance. Sim, porque havia uma margem de manobra, embora limitada, que poderia, mas não foi aproveitada nos anos 90.
A anunciada associação do Peru ao Mercosul, a campanha por apoio dos países andinos à associação da Comunidade Andina de Nações ao Mercosul e o avanço concreto das medidas visando à integração da infra-estrutura física dos países sul-americanos criaram um clima novo na região. Novos governos assumem o poder com posições internacionais comuns às da diplomacia brasileira, outros alteram sensivelmente suas agendas, convergindo com a do Itamaraty. Mesmo a Colômbia, com a proposta brasileira de mediar a devolução de reféns em poder das FARC, parece começar a ver o Brasil com outros olhos, e apenas o Chile persegue seu caminho afastado de seus vizinhos. Uma certa esperança contagia a América do Sul, pois o Brasil começa a ocupar seu espaço.
A reunião da OMC em Cancun, México, foi precedida por uma chamada telefônica do presidente Bush a Lula, o que é revelador. Cordial, mas contestadora, a diplomacia brasileira estabeleceu sua rede com os países em desenvolvimento afetados pelo protecionismo e pelos subsídios agrícolas do Primeiro Mundo. O chamado G-22 despertou a ira dos países ricos e fez a insatisfação do Sul ser ouvida, em meio ao encerramento espetacular do encontro. Antes disso, a intervenção (simbólica) no G-7 foi seguida pela criação do G-3 (Brasil, África do Sul e Índia) e o estabelecimento de laços estratégicos com a China, a Rússia e a União Européia (particularmente Alemanha e França) em vários temas. Esta última, finalmente, encontrou um interlocutor à altura na América do Sul, e não se cansa de elogiar a diplomacia brasileira.
Com essas credenciais, o presidente brasileiro abrirá a Assembléia Geral da ONU em Nova Iorque, evento que terá uma participação recorde de líderes. Com a credencial de quem valorizou as Nações Unidas e negou-se a endossar a infeliz aventura da guerra contra o Iraque, de quem agora é sondado a participar com tropas de ocupação. Assim, mais uma oportunidade de desenvolver uma diplomacia high profile está sendo bem aproveitada, para dizer o que o país pensa, e não apenas para mostrar a adesão passiva da nação a certa agenda estabelecida por outros. Uma visita a Cuba, num momento delicado, longe de constituir um problema, provavelmente demonstrará a desenvoltura e bom senso já evidenciados em relação à Venezuela.
Os críticos vinculados ao ancien régime da era FHC permanecem num certo vácuo, criticando patética e cinicamente o "excesso" de viagens do presidente, enquanto certa esquerda, radical no discurso, lamenta a continuidade das negociações do país sobre a ALCA e o silêncio sobre as negociações do vizinho argentino com o FMI. Ambos grupos críticos tentam conduzir o governo a ceder a provocações, que seriam contraproducentes. Uma negociação, com a visão brasileira sendo encaminhada através de parâmetros técnicos, gera seriedade e desperta a opinião pública nacional para questões que antes eram decididas por um pequeno grupo de burocratas.
Dessa forma, a diplomacia se apresenta como o campo mais bem sucedido do atual governo, com o país recuperando uma ação de grande intensidade e alcance planetário, digna da quinta nação mais populosa e extensa e da oitava economia do mundo. Sem dúvida o cenário internacional é difícil e a capacidade do país limitada, tudo dependendo da retomada do crescimento econômico, mas é necessário agir e propor, e isso o país tem feito. Esse é o contexto da presença brasileira na ONU.
Paulo Fagundes Vizentini