O primeiro Acordo de Oslo, que criou a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e colocou sob seu controle parte da faixa de Gaza e a cidade de Jericó, localizado na Cisjordânia, foi assinado há exatamente dez anos por Arafat e Rabin, na presença do presidente Clinton na Casa Branca. Isto depois de dois anos de negociações, iniciadas em Madrid. Foi necessário que a direita israelense perdesse o poder para que o acordo fosse firmado pelos trabalhistas. O desgaste causado pelo apoio da OLP ao derrotado Saddam Hussein, em 1991, fez com que o histórico líder palestino renunciasse a qualquer objetivo maximalista, como negar o direito de Israel à existência. Aliás, há tempos a reivindicação de um Estado palestino sobre o conjunto do território do antigo Mandato Britânico da Palestina ou sobre a parte árabe do plano de partilha da ONU de 1947(49% do território) era mero recurso de legitimação política dentro do movimento palestino. "Ceder terras em troca da paz", a sábia fórmula de Rabin, foi premiada com o estabelecimento de relações entre Israel e Jordânia em 1994.
Em setembro de 1995 foram assinados os Acordos ditos de Oslo II, que entregaram à ANP o controle das grandes cidades árabes da Cisjordânia. A Zona A, sob total controle da ANP, representava 3% dos territórios ocupados e 20% da população, enquanto a Zona B (controle militar israelense e civil palestino) compreendia 24% do território e 68% da população (os territórios das Zonas A e B são completamente fragmentados, sem continuidade). A Zona C, incluindo Jerusalém oriental (Al Qods, em árabe), com 73% do território e 12% da população, permanecia sob total controle israelense, e nela se intensificou a construção de colônias judaicas e rodovias estratégicas.
A extrema-direita israelense não perdoou Rabin, que cinco semanas depois foi assassinado e, em seguida, a direita voltava ao poder, tentando reverter os Acordos e deslegitimar Arafat. Apenas com o regresso dos trabalhistas, com Barak em 1999, foi possível retomar as negociações e ampliar o recuo israelense na Zona C. Mas a direita recusou-se a aceitar este caminho e a provocação de Sharon, visitando a Esplanada das Mesquitas, levou os palestinos a desencadear a Segunda Intifada. Mas a nova "revolta das pedras" desta vez incluía enfrentamentos armados e atentados suicidas, inclusive dentro dos territórios de Israel, o que permitiu ao líder do Likud retornar ao poder. Era a guerra aberta, facilitada e estimulada pela omissão da diplomacia de Bush.
Três anos depois, fatigados os dois lados, eliminado Saddam Hussein e criado o cargo de primeiro ministro da ANP (ocupado por Abu Abas), reduzindo o poder de Arafat, retomou-se o processo de paz, o Mapa da Rota. Abas era aceito pelos EUA e Israel considerava-o um negociador que partia da trágica realidade palestina, sendo incapaz de reivindicar o conjunto dos territórios ocupados por Israel em 1967 (Cisjordânia e Gaza). Do lado palestino, houve uma fragmentação de milícias que não obedeciam a ANP e prosseguiam os atentados, enquanto Arafat tentava recuperar seu poder. Ele logrou demitir Abas e substituiu-o por um aliado seu, Ahmed Qorei (ou Abu Alá). Então, quando se completavam 10 anos do Acordo de Oslo, o mundo ouviu chocado o governo israelense decidir pela expulsão de Arafat e, até mesmo, segundo o vice-primeiro ministro Ehud Olmert, por assassiná-lo.
A reação da comunidade internacional, começando pelos EUA, foi imediata e o governo Sharon recuou quanto a eliminar Arafat, mas o dano político já estava causado. Há 15 anos Israel enfrenta a revolta da população palestina, a um custo elevadíssimo para ambas comunidades e, inclusive, para a economia israelense. Israel detém uma capacidade militar para destruir todos os países da região, mas as guerras externas refluíram para a repressão a um sangrento protesto urbano interno. Esta situação alimenta o extremismo e o terrorismo. Como a guerra do Iraque comprovou, os meios militares têm limites. Dez anos depois de Oslo, a paz político-social e a integração econômica na região são necessidades prementes, mas ainda distantes.
Paulo Fagundes Vizentini