Dois anos depois dos atentados a Nova Iorque e a Washington, vinte e dois meses após a derrubada dos Talibãs e a ocupação do Afeganistão e quatro meses desde a derrubada do regime de Saddam Hussein e da ocupação do Iraque, a violência e o terrorismo se tornaram epidêmicos nos países derrotados pelos Estados Unidos em sua cruzada contra o "eixo do mal". No Afeganistão, as lideranças do Talibã e da Al-Qaeda nunca foram capturadas, as ações militares prosseguem com regularidade e continuam os pedidos de envio de mais tropas pelos responsáveis pela ocupação.
No Iraque, o regime derrubado manteve uma guerrilha no centro do país contra as forças americanas, atuando através de pequenos grupos, empregando armas leves (fuzis, lança-granadas e minas terrestres). Saddam Hussein e vários líderes não foram encontrados e continuariam coordenando estas ações, que já causaram mais baixas aos ocupantes do que a própria guerra. Mas nas últimas semanas começaram a ocorrer atentados terroristas, empregando automóveis e caminhões-bomba, contra objetivos de grande impacto político-diplomático e personalidades como o líder da missão da ONU, Sérgio Vieira de Mello, e o líder da comunidade xiita, o Aiatolá Mohamed Baqir al Hakim.
Trata-se, mais do que uma escalada na violência, da inauguração de uma nova fase, a dos atentados terroristas. Como disse em artigo anterior, o núcleo sunita do centro do país, cuja oposição é ligada ao regime derrubado, era apenas o início dos problemas, um desafio moderado e previsível, pois enquadrado dentro de uma lógica já conhecida. Mencionei que os xiitas do sul e, futuramente, os curdos no norte, seriam problemas muito mais graves e difíceis de lidar, pois o enfraquecimento do poder central e a impossibilidade de Saddam retornar ao poder desencadeariam as forças centrífugas do turbulento país.
Assim, ingressou-se numa fase confusa e ainda mais violenta, em atentados que não estão claros e que são imputados, com irresponsável facilidade, à rede Al-Qaeda. Certamente o regime deposto é dado a demonstrações de força irracionais contra seus inimigos, mas não podemos esquecer que a Jordânia (cuja embaixada foi a primeira vítima da nova onda de atentados), a ONU e os xiitas manifestavam fortes reservas em relação à ação americana. Desta forma, a lógica dos atentados ainda permanece obscura, e atribuí-los a atores sem rosto é demasiado fácil e, talvez, uma camuflagem para a incapacidade de estabilizar o país. Estabilidade que, há um ano, afirmo ser muito improvável.
O que fica claro é que o pós-guerra não significou paz e que os EUA estão pagando um preço elevado e, em lugar da rápida retirada inicialmente prevista, desenha-se um cenário de envolvimento prolongado e ainda maior e mais custoso. A sabotagem econômica (oleodutos, redes de eletricidade e infra-estrutura) faz com que a possibilidade de auto-financiar a reconstrução e estabilização com a venda do petróleo seja cada vez menos eficaz. Na corrida eleitoral que se inicia nos Estados Unidos, explicar o fracasso, receber soldados mortos e pedir ao Congresso fundos suplementares pode ter conseqüências sérias aos projetos políticos do governo Bush.
O Iraque tem sido, há quinze anos, uma dor de cabeça para os Estados Unidos, e parece que a derrubada do ditador iraquiano não mudou o cenário. Pior ainda, anteriormente o país podia permanecer isolado, com Washington se dedicando a questões mais urgentes. Hoje, o problema é crescente e a Casa Branca não pode suspender seu envolvimento, especialmente quando outros países evitam envolver-se na segurança e, por conseqüência, na reconstrução e institucionalização de um novo regime. O derrotado Iraque continua sendo um desafio e uma nação ingovernável.
Paulo Fagundes Vizentini