Dois anos após dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center em Nova Iorque e ao Pentágono em Washington, a mesma pergunta feita na época e, novamente, um ano depois, volta a ser feita: este impactante acontecimento marcou o fim de uma época e o início de outra? A esta, podemos acrescentar outra questão: o que mudou desde então? Sem dúvida, o mundo não parou, e a vida prossegue, mesmo em Nova Iorque, com os planos de reconstrução do ground zero. A liderança americana, desde então, também foi reafirmada, após duas guerras vitoriosas. Mas isto tudo não significa que o mundo permaneceu o mesmo.
Em primeiro lugar, o imenso capital de solidariedade que os Estados Unidos receberam do mundo nos dias que se seguiram ao atentado, foi sendo gradualmente desperdiçado. A comunidade internacional apoiou a guerra ao terrorismo como uma necessidade urgente, mas numa interpretação distinta da de Washington. Sem dúvida, existia um componente militar imediato e indispensável: a derrubada do aberrante regime Talibã no Afeganistão, provável ponto de partida do atentado. Mas, a partir daí, a guerra ao terrorismo deveria contemplar uma agenda ampla: política, social, cultural e econômica, e não apenas militar como a administração Bush considerava prioritariamente.
O Afeganistão foi ocupado, mas jamais pacificado, nem os dirigentes talibãs e da Al Qaeda foram encontrados. As investigações sobre as responsabilidades dos atentados tiveram resultados medíocres e a detenção de jovens talibãs na base de Guantanamo, sem respeito ao Direito Internacional e aos Direitos Humanos, desgastaram a imagem dos EUA. O terrorismo continuou ativo, os combates prosseguem no Afeganistão dois anos depois e Washington não conseguiu fazer avançar o processo de paz entre Israel e os palestinos, uma das fontes de legitimação dos grupos terroristas.
Tudo isto se complicou com a obstinação do governo Bush em atacar o Iraque sem que os inspetores da ONU concluíssem seu trabalho. Assim, vozes nos Estados Unidos e no mundo começaram a questionar a eficácia e, até, os verdadeiros objetivos da guerra ao terrorismo. E, mais que a opinião pública, a diplomacia começou a reagir. O descaso americano para com a ONU e as acusações exageradas (a maioria delas desmentidas posteriormente) sobre a posse de armas de destruição massiva pelo regime de Saddam Hussein fez com que aliados americanos no Oriente Médio, Europa e Rússia afrontassem diplomaticamente os EUA. O mecanismo da OTAN chegou a ser bloqueado, pela primeira vez na história.
França, Alemanha e Rússia criaram o "eixo da paz", Turquia, China e Japão não apoiaram a ofensiva anglo-americana e a Arábia Saudita solicitou a retirada das bases Yankees de seu território. Tradicionais aliados dos EUA na América Latina, integrantes temporários do Conselho de Segurança da ONU surpreendentemente também não apoiaram a guerra, ao mesmo tempo em que governos críticos à agenda internacional da Casa Branca foram eleitos em quase todos os países sul-americanos. Para muitos, os Estados Unidos aproveitavam a agenda da luta contra o terror para acertar as contas com velhos rivais do "eixo do mal", enquanto descuidavam da economia internacional, que vive desde o início do século em recessão.
O mal estar também tomou conta dos EUA. Durante o governo Bush os déficits cresceram (só a ocupação do Iraque custa um bilhão por semana), mais de três milhões de empregos foram extintos, as medidas de segurança interna e os procedimentos necessários para a obtenção de visto de entrada criaram enorme desconforto e prejuízos, enquanto as novas leis de caráter conservador acabaram dividindo a opinião pública americana. Além disso, o país encontra-se literalmente atolado no Iraque, com custos militares, políticos e econômicos não previstos pelo governo, além dos escândalos sobre a manipulação de falsas informações utilizadas para justificar a guerra, o que atinge igualmente aliados como Tony Blair da Inglaterra.
Bush é candidato à reeleição e, há três meses, parecia imbatível, mas os problemas se acumulam dia a dia. Além dos resultados pouco promissores acima enumerados e da crescente impopularidade do país no mundo, a oposição de Hollywood e eventos como o "apagão" do nordeste dos EUA geram um clima sombrio. Assim, a enorme força projetada para fora, volta-se contra os EUA como um boomerang. A população ainda está sob o efeito dos atentados, mas começa, lentamente, a superar o trauma e a exigir ações mais realistas do governo. O simples emprego da força não constrói estabilidade e, indiretamente, alimenta um difuso sentimento anti-americano no mundo, o que não existia logo após o 11 de setembro de 2001.
Para completar, a terrível onda de calor no hemisfério Norte faz lembrar que o Protocolo de Kyoto não pode mais ser boicotado pelos EUA, enquanto o atentado que vitimou Sérgio Vieira de Mello reforça no mundo a visão de que a ONU é um organismo que deve ser respeitado. Enfim, dois anos depois se pode observar que o 11 de setembro iniciou uma nova era, em que o poder americano é muito mais aparente que real, como observou Emmanuel Todd em seu magistral livro Depois do Império (Ed. Record). Outras forças começam a exigir seu lugar na ordem mundial, através da estruturação de um sistema multipolar.
No plano mais imediato, a mensagem destes países e da opinião pública é que o mundo necessita deixar de viver sob o signo do 11 de setembro e que a única superpotência deve exercer sua liderança de forma construtiva e compartilhada. Mas para isto, a própria América precisa superar o trauma, exorcizar os fantasmas do terrorismo e deixar de viver exatamente como os autores do atentado desejavam: com um medo agressivo que a desgasta e isola do mundo.