A posse do novo presidente paraguaio, Nicanor Duarte F., no plano da política internacional, representa mais um passo no caminho das mudanças em curso na América do Sul. A eleição de Lula no Brasil, de Kirchner na Argentina, de Duarte no Paraguai e a provável vitória de Tabaré Vasquez no Uruguai em 2004 (a Frente Ampla já conta com uma intenção de votos de 70%), faz com que a estratégia de relançamento do Mercosul ganhe força renovada, devido à sintonia existente entre os projetos em andamento no quatro países-membro.
Da mesma forma, a vitória de Gutierrez no Equador e o governo Chávez na Venezuela sinalizam na mesma direção. Os governos do Peru e do Equador, por outro lado, embora inicialmente voltados a políticas neoliberais, enfrentaram sérias crises e agora se aproximam das mesmas políticas dos vizinhos do Mercosul. A situação e a evolução destes quatro países reforçam as perspectivas de uma virtual associação Mercosul-Comunidade Andina, tornando possível uma futura integração sul-americana.
A Colômbia, por sua vez, terá de optar entre priorizar uma agenda de segurança internacionalizada ou integrar-se com os vizinhos, sem dúvida uma escolha difícil. Já o Chile, com sua estratégia de inserção individual na economia mundial e sempre avessa a participar de esquemas de integração regional, corre o risco de ficar isolado de seus vizinhos, se a integração sul-americana vier a ocorrer. Daí a inquietação que seus representantes têm demonstrado nos diversos fóruns diplomáticos, econômicos e acadêmicos. Os Estados Unidos, opção prioritária destes dois países, entre as dificuldades no Iraque o e "apagão" que evidenciou problemas de sucateamento e desregulamentação, parece não ser a solução para todos os problemas, dando razão às teses declinistas do novo livro de Emmanuel Todd, Depois do Império (Ed. Record).
Pode parecer pouco, mas o discurso de posse do presidente Duarte representa uma inflexão significativa para um país com o perfil de inserção internacional como o Paraguai. A razão de tantos países sul-americanos, com governos tão diferentes, optarem por políticas que retomam princípios desenvolvimentistas keynesianos (intervenção do Estado, valorização da produção, do mercado interno e dos temas sociais) e da importância da integração regional, deve-se às dimensões da crise e ao desgaste das políticas neoliberais. Vale lembrar que a Argentina, fiel seguidora das políticas do FMI e dos Estados Unidos, sofreu sua agonia sem receber qualquer apoio de ambos. E isto calou fundo nas elites sul-americanas, embora elas tenham se expressado de forma discreta.
A chave para o sucesso das políticas anunciadas de prioridade à integração, todavia, depende da retomada do crescimento econômico no maior país da região, o Brasil. As integrações regionais, que não visam ser excludentes como denunciam os críticos liberais, são como armaduras para enfrentar a difícil luta que se trava na economia mundial. Se elas são indispensáveis, todavia, mais importante é um corpo vigoroso e um cérebro inteligente dentro delas, pois armaduras constituem um meio, não um fim. Para países em desenvolvimento, como os sul-americanos, é necessário uma economia que cresça, orientada por um plano estratégico.
Neste contexto, a ação do Estado como coordenador do processo e articulador da força política interna e externa necessária para levar adiante tal projeto é imprescindível. Assim, tudo vai depender da ação do governo brasileiro. A reforma da previdência representa uma continuidade do declinante ajuste neoliberal, ou um passo necessário para a retomada do crescimento? Em menos de um ano esta pergunta deverá ser respondida. Por enquanto, se acumulam avanços no plano externo, como poder contar com um governo pró-Mercosul no Paraguai. Mas todos esperam pelo país pivô da região, o Brasil, para que o discurso se torne realidade, pois o "novo curso" diplomático sul-americano não sobreviverá sem a retomada do desenvolvimento brasileiro.