O atentado à sede da ONU em Bagdá, que entre outros vitimou o brasileiro Sérgio Vieira de Mello dia 19 de agosto de 2003, inscreve-se num quadro de agravamento da situação na região do Oriente Médio e, particularmente, da ocupação anglo-americana do Iraque. Normalmente sou bastante objetivo em minhas análises e consigo controlar os sentimentos, mas confesso-me abalado, tanto devido a sua grandeza moral e competência pessoais como, em função de sua visão do sistema mundial, pela contribuição que daria à construção de uma nova realidade internacional. Trata-se de uma grande perda, e a melhor homenagem que posso dar a ele é tentar analisar a questão objetivamente, embora emocionado.
Em primeiro lugar, é preciso descartar a versão simplista que imputa à Al-Qaeda a responsabilidade, pois isto significa simplesmente endossar a versão oficiosa do governo norte-americano, especialmente num momento em que inverdades são denunciadas e reconhecidas. Nunca foi encontrada qualquer evidência da atuação desta organização no Iraque. Ela e o regime iraquiano são condenáveis, mas se trata de elementos absolutamente diferentes. O regime de Saddam não era fundamentalista islâmico, e se tivesse capacidade de agir internacionalmente (como a Al-Qaeda), certamente o teria feito quando isto podia ser útil.
O mais provável é que se trate de um ato da resistência do regime derrubado, pois a ONU era um alvo fácil e a organização acabara de aprovar a legitimidade do Conselho Iraquiano como poder e o levante do embargo (que normalizariam o "novo Iraque", encerrando a era Saddam). Da mesma forma, para os partidários de Saddam era necessário mostrar ao mundo que o país não está controlado e que qualquer nação que queira enviar tropas para auxiliar os enredados anglo-americanos, pagaria um preço elevado politicamente. Depois do atentado, qualquer governo pensará duas vezes antes de repartir as (ir)responsabilidades com as forças de ocupação. E isto poucos dias depois do atentado à Embaixada da Jordânia.
Mas o bom analista deve evitar o demasiado óbvio e pensar em múltiplas possibilidades, sempre se perguntando a quem o atentado interessa (embora a irracionalidade do mesmo não possa ser descartada). Sérgio Vieira de Mello era, além de representante do Secretário-Geral da ONU como chefe da missão no Iraque, Alto-Comissário para Direitos Humanos da mesma organização e forte candidato à sucessão de Kofi Annan. Considerando isto, é necessário conhecer detalhadamente qual era sua posição sobre as grandes questões mundiais da atualidade (e particularmente sobre o futuro do Iraque), e saber quem se sentia ameaçado por ela. Chama atenção a facilidade com que o atentado foi perpetrado e o descaso das forças de ocupação com relação à segurança da sede da ONU em Bagdá. Também foi estranha a relativa frieza do governo americano em relação a um atentado de tamanha gravidade.
Fica a dúvida se o alvo era a ONU, seu conceituado funcionário, ou simplesmente os "estrangeiros" em solo iraquiano. No primeiro e terceiro casos, teria sido visado simplesmente seu cargo, e não sua pessoa e posição pessoal, uma vez que a sociedade iraquiana não tinha motivos para detestá-lo. De qualquer maneira, fica evidente que a situação não país é cada vez mais difícil, o que, aliás, ocorre em toda a região. Nos últimos dias houve violentos confrontos no Afeganistão e, no mesmo dia, um atentado suicida em Israel fez 20 mortos e 100 feridos, mostrando que o processo de paz encontra-se bloqueado. Começar uma guerra é bem mais fácil que encerrá-la, e por isto é necessário avaliar muito bem as conseqüências antes de começar uma. Negociar, com os dois lados cedendo, é a única solução duradoura, e por isto este caminho é tão difícil, mas este é o legado que este ilustre brasileiro nos deixa.
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