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05 de agosto de 2003

Israel/Palestina: um muro no caminho da paz

Nos últimos dias constantes incidentes têm ocorrido na Cisjordânia, devido à reação das forças israelenses face aos protestos de palestinos e ativistas internacionais contrários à construção do muro que separa árabes e judeus. Entre tantos pontos delicados para a negociação de paz conhecida como "o Mapa da Rota", proposto pelos Estados Unidos, com a participação da ONU, Rússia e União Européia, este ameaça converter-se num entrave capaz de fazer abortar todo o processo. A situação de Jerusalém oriental, das colônias israelenses na Cisjordânia e Gaza e do retorno dos refugiados palestinos sempre representou problemas delicados, sobre os quais existem diversas teses em negociação. Mas o muro de concreto, com as demais barreiras paralelas (arame farpado e estradas militares), representam um fator totalmente novo de tensão.

Iniciado há alguns meses, o muro tinha como objetivo declarado impedir a passagem de militantes palestinos que cometem atentados suicidas em Israel, sendo, portanto, aparentemente uma medida emergencial. Cento e cinqüenta quilômetros já foram construídos na parte norte, devendo, ao final, alcançar 650 quilômetros de extensão, a um custo de quase um bilhão e meio de dólares. As obras avançam sem publicidade, mas com rapidez, revelando uma estratégia definitiva, que tornaria as negociações completamente inócuas, na medida em cria um fato consumado e irreversível.

Com o que já foi construído, o que se encontra em construção e o que está sendo projetado, restaria aos palestinos somente 40% do território da Cisjordânia, sem continuidade territorial e com diversas cidades árabes completamente isoladas. Todo o vale do Rio Jordão, que faz fronteira com a Jordânia, ficaria sob controle de Israel, deixando o virtual Estado Palestino com fronteiras apenas com o Estado de Israel (na verdade, encravado dentro dele). Além disso, o traçado do muro dificultaria as comunicações internas, devido à sua extensão a colônias judaicas que se localizam no centro da região. O presidente Bush, durante a recente visita do primeiro ministro Sharon a Washington, fez uma referência crítica ao muro, mas sem grande ênfase. A situação que se está criando deixará o primeiro ministro palestino Abbas, partidário da paz, numa posição difícil.

Não está claro se o muro resultou de uma medida desesperada (discutível mas justificável) para bloquear os atentados e, depois, converteu-se numa situação definitiva com o início do processo de paz, ou se, desde o início, fora idealizado como a fronteira desejada por Israel. Seja como for, o muro reforça um sentimento de gueto para as duas comunidades, pois algumas colônias terão acesso por estradas que correm por um estreito corredor de vários quilômetros com muro dos dois lados. Para os palestinos, é desnecessário comentar seu sentimento de isolamento.

Pior, não há na história mundial um exemplo de separação de povos por muros que tenha resultado em segurança e estabilidade. A paz é um processo difícil e necessita ser construída em clima de crescente confiança, com concessões de ambos os lados. Uma medida como a construção do muro pode ser compreendida como reação ao insucesso em deter o levante palestino e os atentados suicidas, mas revela uma perspectiva de curto prazo. Há que avaliar, igualmente, o impacto econômico negativo em termos da dificuldade de deslocamento de mão de obra. Seja como for, este fator se converteu num novo problema para o processo de paz, e que se agravará com o avanço da construção. E o presidente Bush, já em campanha eleitoral e em dificuldades no Iraque, não parece decidido a exercer pressão.


 
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