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29 julho de 2003

Coréia: 50 anos de paz armada

Os dois Estados coreanos comemoraram esta semana meio século da assinatura do acordo de cessar-fogo de Paenmunjon, cidade na linha divisória fortificada de quase 200 km de extensão. O Acordo encerrou a guerra, mas jamais foi assinado um Tratado de Paz, entre outras coisas, pela permanência de tropas americanas na metade sul da península. Desde então existe uma paz tensa dos dois lados da fronteira, uma situação agravada pela crise permanente da Coréia do Norte (socialista), desde a queda da União Soviética. Sempre que se encontra em dificuldades, o Norte gera uma crise perigosa, numa estratégia de brinkmanship (levar a tensão ao limite máximo, para só então parar).

Quando o presidente Bush, rompendo acordos assinados pelo governo Clinton, cortou a ajuda alimentar e energética aos norte-coreanos, além de incluí-los no "eixo do mal", eles anunciaram a retomada de seu projeto nuclear e a intenção de produzir armas atômicas, violando o tratado de não-proliferação. Ora, este é o único meio do país chamar atenção para seus problemas e exigir apoio externo. Construir armas atômicas é um processo caro, complexo e demorado. Provavelmente, a esgotada economia do norte não tenha condições para isto. Mas o país é super armado, disciplinado e, certamente, possui armas químicas, mísseis de alcance médio bastante eficazes e, talvez, armas bacteriológicas.

Contudo, o que Kim Jong-Il, o líder norte-coreano deseja, é um acordo com os EUA, garantindo abastecimento e a segurança de seu regime, em troca da renúncia em fabricar armas nucleares. Apesar de ser uma estratégia perigosa na era Bush e no pós-11 de setembro, os EUA não parecem dispostos a iniciar uma guerra, pois, ao contrário do Iraque, a Coréia do Norte possui armas de destruição massiva. Saddam foi atacado porque não as possuía, mas, no caso coreano, o risco seria incalculável. Assim, o regime do norte vai sobrevivendo, em meio às dificuldades.

Já a Coréia do Sul, comemora este cinqüentenário de paz armada numa situação diferente. O país realizou desde os anos 70 uma revolução econômica que o colocou na posição de segundo Estado asiático a obter indicadores sócio-econômicos de nação desenvolvida de Primeiro Mundo. Além de se tornar um pólo industrial e da sociedade de informação, tornou-se um regime plenamente democrático e desenvolve uma diplomacia ativa e cada vez mais influente no plano global. A Coréia, pela primeira vez na História, deixou de ser um país de expressão regional, especialmente depois que ingressou na ONU no início dos anos 90. Além disso, desde que estabeleceu relações com a China Popular em 1992, o país acelerou seu desenvolvimento econômico e ativismo diplomático, este último de forma bastante autônoma.

Uma conseqüência deste aspecto é o desenvolvimento da sunshine policy, que abriu um diálogo com a Coréia do Norte, condição para que o futuro da península seja decidido pelos próprios coreanos. Com inteligência e sutileza, Seul tem conseguido evitar o agravamento das crises e manter um relacionamento produtivo com o norte. Contatos familiares, ajuda humanitária, cooperação econômica e ligação ferroviária estão em desenvolvimento. Quando o mais influente empresário sul-coreano (que fomentou o diálogo e a cooperação) veio a faleceu há pouco mais de um ano, o líder norte-coreano enviou flores e condolências, o que representa um gesto de elevado simbolismo.

Além disso, a Coréia do Sul foi um dos primeiros países que conseguiu superar a crise asiática, quitando a dívida com o FMI antes do prazo, na medida em que sequer sacou todo dinheiro liberado pelo Fundo. O retorno do crescimento econômico gera otimismo em relação ao futuro, num momento em que o mundo encontra-se numa fase de recessão. Contudo, mais notável é o fato de que, embora a unificação das Coréias seja um objetivo difícil no curto prazo, meio século depois de encerrada a guerra o sul está estabelecendo condições para uma coexistência relativamente estável e para uma convergência entre os dois lados, preparando o caminho para uma futura reconciliação ou, mesmo, definitiva unificação.


 
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