O General Collin Powell, único militar da cúpula dirigente norte-americana, no início a crise entre seu país e o Iraque, advertiu seus colegas civis e radicais de que a guerra não era o melhor caminho e traria conseqüências graves. Com sua experiência na anterior guerra do Golfo pela libertação do Kuwait em 1991, Powell conhecia os problemas da região. Mas ele foi voto vencido e teve de seguir os demais membros do governo Bush, especialmente o Vice-presidente Cheney, Condollezza Rice, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz, que desejavam a guerra a qualquer preço. E, agora, o preço se revela demasiado elevado.
Mentiras e manipulações não cessam de ser denunciadas dia após dia, embaraçando os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido. Agora, um dos personagens que denunciou estes problemas, o cientista britânico David Kelly, apareceu misteriosamente assassinado, complicando ainda mais a situação. Armas de destruição massiva, compra de urânio na África, poderio do exército iraquiano e ligações com a rede Al Qaeda por parte do regime de Bagdá simplesmente foram pretextos inventados ou exagerados, com a finalidade de legitimar a guerra, como foi publicamente admitido por membros do governo americano.
Tal situação permitiu a ressurreição dos Democratas, que passaram à ofensiva contra os Republicanos, começando a ameaçar a anteriormente tranqüila reeleição de George W. Bush. A posição de Tony Blair, primeiro ministro britânico é, provavelmente, pior ainda, como ocorre com José Maria Aznar, chefe do governo espanhol e entusiasta da guerra. Os países convidados a enviar forças militares para o Iraque têm sistematicamente recusado esse "presente grego". Tudo isso é agravado pelos incríveis erros de cálculo dos EUA em relação ao próprio Iraque, cuja ocupação torna-se mais complicada e custosa a cada dia.
O centro do país tem capitalizado a resistência às forças de ocupação, pois é melhor organizado politicamente, na medida em que constituía a principal fonte de apoio do regime deposto, cujo líder não foi até agora encontrado. Mas as maiores dores de cabeça para os EUA ainda não começaram e virão do sul, onde os xiitas são majoritários. Por muito tempo oprimidos e desarticulados pelo regime do partido Baas, de Saddam Hussein, eles começam a se rearticular politicamente e constituirão uma força poderosa contra os ocupantes, mais através de ações de massa do que de atentados, como ocorre na região sunita.
No norte, por outro lado, é apenas uma questão de tempo o desentendimento dos partidos curdos e a intromissão de países vizinhos, como Turquia e Irã. Os americanos não estão preparados para entender e agir em função da complexa e pouco inteligível rede de alianças e rivalidades do Curdistão, que se alteram do dia para a noite. Diariamente soldados dos EUA são mortos ou feridos, criando um problema doméstico para o governo Bush, numa situação cuja resolução parece a cada dia mais distante. A falta de segurança para a população, a carência de recursos e infra-estrutura que funcione, tem exasperado os cidadãos iraquianos.
Articular um Conselho iraquiano de governo (apenas com poderes consultivos), escolhido pelo ocupante, tende a agravar os problemas, mais do que a resolve-los, pois a oposição é dividida e carece de legitimidade e de bases internas de poder. Prisioneiros afegãos de Guantanamo começam a ser libertados, por absoluta falta de provas contra eles, o que prova que os resultados da guerra anterior também foram modestos. Assim, a aura e a legitimidade da guerra começa a desaparecer rapidamente, mesmo nos Estados Unidos. Temas como a recessão econômica, o desemprego e os déficits financeiros, agravados pela guerra e pela ocupação, crescem no debate interno.
Os danos causados à imagem americana no mundo e o desgaste na relação com os aliados também preocupam. Há pouco tempo se dizia que os Democratas estavam fora do jogo político e que a popularidade de Bush era imbatível. Mas vale lembrar que o pai do atual presidente venceu o Iraque em 1991, com apoio mundial, e libertou o Kuwait, logrando uma grande aceitação e, depois, perdeu as eleições para Bill Clinton, então um político pouco conhecido. Os Democratas ainda não tem um nome, mas podem vir a ter, e as eleições americanas, que provavelmente serão muito influenciadas pela situação acima descrita, ainda podem vir a causar muitas surpresas.