O filme "Tiros em Columbine", de Michael Moore, que ganhou um Oscar e foi premiado em Cannes, nos traz uma reflexão necessária neste momento delicado da história americana e mundial. A análise da violência da sociedade americana comporta diversas dimensões. A externa envolve episódios de genocídio, como o quase extermínio dos índios e os massacres como os bombardeios sobre as cidades da Alemanha (especialmente Dresden) e o uso de Bombas Atômicas sobre um Japão em vias de rendição (a única arma de destruição realmente massiva já empregada). Isto para não falar do Vietnã e do Iraque, sobre os quais foram lançados, respectivamente, Agente Laranja e munições de urânio empobrecido, que causaram milhares de vítimas inclusive entre os soldados americanos.
Mas pode-se argumentar que, exceto pela Bomba Atômica, este tipo de violência não é exclusividade dos EUA, o qual, nestes episódios, necessitava possuir um sentido de missão divina. Houve também um momento de violência coletiva interna, a Guerra de Secessão (guerra civil entre norte e sul, 1861-65), bem como a manutenção de um prolongado clima de terror contra os negros no sul. Mas não são estes eventos que caracterizam a especificidade da violência da sociedade americana, embora possam constituir uma projeção exterior da mesma. O importante é a dimensão interna, a violência individual permanente.
Os westerns nos brindam com uma visão histórico-sociológica dos cidadãos-proprietários, que tomavam a lei nas próprias mãos e tinham o direito de fazer justiça. Parte disto resultava das condições de uma sociedade pré-urbana, mas havia a presença de um sentimento de medo de uma minoria frente a um mundo hostil, em parte herdado das seitas de tipo calvinista inglesas através dos pilgrims, os fundadores da nação americana. Contudo, é forçoso admitir que entre o justiceiro do oeste e o detetive particular urbano, existe uma linha de continuidade. Os detetives Marlowe, Archer e MacGee, personagens dos livros de Chandler, Ross MacDonald e John MacDonald, respectivamente, obedecem a um obscuro sentido missionário, sendo evangelizadores de uma religião insólita e paradoxal, a da violência individual.
O país possui mais de 130 milhões de armas de fogo em mãos de particulares, uma para cada dois cidadãos, responsáveis anualmente por 11 mil mortes (contra apenas 32 no Japão). O mito da arma como defesa contra os criminosos não resiste ao estudo científico-estatístico: numa pesquisa efetuada em dois condados do Estado de Washington, dentre 743 mortes, apenas duas eram de criminosos. Outros estudos apontam que 77% dos jovens morrem devido a diversas formas de violência, a principal delas armas de fogo, desde estudantes e profissionais que atiram em colegas (conhecidos), até desconhecidos que metralham outros desconhecidos em restaurantes, antes de se suicidar, ou ainda pessoas que matam seus próprios familiares.
Este aspecto é interessante: em 80% dos casos, o assassino e a vítima se conhecem, segundo Lee Brown, ex-chefe de polícia de Houston, Texas, e Doutor em criminalística. Muitas causas são apontadas, todas elas inegavelmente válidas: drogas, racismo, criminalidade, stress, depressão (suicídios), pobreza e humilhações durante a infância. A televisão e o cinema, obviamente, dão sua contribuição, ao banalizar a violência, a converter o atirador numa estrela ou herói e a, indiretamente, ao estimular e a educar para a sua prática. Mas estes fenômenos, bem como o elevado percentual de armas entre a população (e a facilidade para adquiri-las), também existem em outros lugares como o Canadá, sem que a sociedade mergulhe numa violência epidêmica como nos Estados Unidos, como demonstrado no filme de Moore. A TV não faz mais do que refletir um determinado conteúdo social. Então, qual seria sua causa profunda e específica em relação ao país?
A causa central está na cultura derivada da estrutura social e econômica norte-americana. O uso de armas contra outros seres humanos possui uma dimensão de ritual de iniciação, derivada da luta do homem contra a natureza hostil e uma afirmação de virilidade, ou virtude viril. Igualmente, numa sociedade profundamente atomizada e individualista, o atentado político ou o espetáculo de um ato violento mostrado na TV em horário nobre, permite ao indivíduo cinzento, anônimo no meio da massa, converter-se numa estrela e lograr fama e exibicionismo. Segundo Gerald Messadié, "o tiro de revólver (...) é um ato de nascimento social. E esse fenômeno só tem exemplos na América. Lá, a violência suprema representa um meio de auto-realização, ao satisfazer a vaidade de quem o pratica. É claro que a violência não campeia apenas nos Estados Unidos; mas é só (lá) que ela se reveste dos estigmas da virtude"*.
As grandes cidades americanas constituem igualmente um universo opressivo, com prédios que formam verdadeiros canyons, com seu tráfego infernal. O modelo atomizado da sociedade se agrava nessas urbes brutais, gerando uma solidão enlouquecedora. E toda a concepção arquitetônica parece ter como meta reforçar o caráter hostil das urbes americanas, onde todo o espaço central é dominado por jovens, sejam criminosos ou yuppies. Assim, trata-se da decorrência de um determinado tipo de capitalismo, no qual a vida aparenta ser uma espécie de guerra permanente, em meio à competição desenfreada, que premia os winners (vencedores) e abandona os loosers (perdedores). Assim, o indivíduo encontra-se sozinho diante de um universo opressivo. A violência individual e o medo constituem, neste sentido, um eficaz mecanismo de controle social. Ao descarregar sua insatisfação contra outros indivíduos, o cidadão deixa de fazê-lo contra o sistema.
O Estado, em relação ao qual os cidadãos sentem-se distantes e desconfiados, é débil e não parece disposto a lutar contra esta tendência à violência individual, considerada parte da ordem natural das coisas. Afinal, até juizes e xerifes são eleitos (e não concursados) e mesmo muitas delegacias de polícia são privadas. Um Estado que pune severamente o tabagismo em locais públicos, mas não controla a venda de armamentos. Neste sentido, é interessante notar que a formação social norte-americana constituiu-se num processo de ruptura com o passado e as tradições históricas européias. A Inglaterra ainda possui regras de condicionamento social legadas por sua história, e transmitiu-as ao Canadá e Austrália, por exemplo. Já nos Estados Unidos, é como se o país houvesse recomeçado do zero, em meio ao isolamento físico. E o capitalismo norte-americano, desenvolvido num espaço geográfico novo, com uma população desenraizada, pôde dar vazão a todas suas características intrínsecas, sem a mediação e as limitações legadas pela tradição passada de outras formas histórico-sociais, como na Europa e na Ásia oriental.
Hoje, contudo, a sociedade americana está tendo que enfrentar seus fantasmas. Se uma revolução ultra-conservadora tenta se afirmar, com a redução do direito de aborto e da proteção às minorias e a ampliação do uso da pena de morte e o desencadeamento de guerras desnecessárias, por outro, filmes como o de Michael Moore revelam a vitalidade de uma tradição democrática e humanista da América.