O presidente norte-americano, George W. Bush, deverá visitar cinco países africanos esta semana: Senegal, Nigéria, Uganda, Botsuana e África do Sul. Segundo suas próprias palavras, a viagem visa melhorar a imagem internacional dos Estados Unidos, desgastada devido à guerra contra o Iraque. Bush leva a proposta de aumentar a ajuda americana ao continente africano, como forma de combater a pobreza, e colaborar na luta contra a AIDS, que devasta a região, tentando demonstrar que os EUA se preocupam com os problemas locais.
Certamente, restaurar vínculos danificados pela maneira unilateral como o conflito foi desencadeado, é a principal preocupação americana. Paralelamente, trata-se de iniciar um processo de neutralização dos enormes avanços que a diplomacia francesa fez no continente, revertendo as posições perdidas para os EUA na época da presidência Clinton. É preciso lembrar que mesmo os países africanos presentes no Conselho de Segurança foram reticentes ao pedido americano de apoio para obter um mandato legalizando o ataque ao regime de Saddam Hussein.
A visita, por outro lado, procura granjear certo capital de simpatia ao presidente americano para as eleições de 2004. Representa uma forma de agradar a comunidade afro-americana, na busca de votos adicionais, compensando a falta de políticas domésticas de apoio a este grupo. Afinal, planos de ajuda para a África são pouco custosos, devido a enorme carência deste infeliz continente. Mas a viagem coincide com outro problema relevante: a guerra civil na Libéria.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e importantes líderes europeus e africanos aproveitaram a ocasião para solicitar ao presidente Bush que envie uma força de paz ao país. Os vínculos históricos entre os EUA e a Libéria deixam Bush numa posição em que a recusa se torna difícil. A Libéria, como Estado-nação, foi fundada no início do século XIX com o retorno de ex-escravos norte-americanos à África, que fundaram a cidade de Monróvia (homenagem ao presidente James Monroe). Os negros cristianizados que retornaram ao continente (hoje 15% da população) foram recebidos pelos nativos como invasores, precisando ser defendidos por navios armados dos EUA.
Companhias européias exploram diamantes e a Firestone controla gigantescos seringais no país, que funciona também como centro off-shore para o licenciamento de navios, tornando-o, teoricamente, a sede da maior frota mercante do mundo. Mas o país vive intermináveis guerras civis, com elevadíssimo nível de violência social. Neste contexto, Washington já pressionou o impopular presidente Charles Taylor para exilar-se na Nigéria e, talvez, venha a enviar tropas de paz ao país, desta vez com amplo apoio da opinião pública mundial.
Desta forma, a comunidade internacional consegue envolver os Estados Unidos com a agenda das crises "normais", desviando-os da obsessiva guerra ao terrorismo. Além de passar por três países menores, o presidente Bush deverá visitar os dois gigantes da África Negra, a África do Sul e a Nigéria (que deverá dar asilo ao presidente liberiano), as quais se opuseram ao ataque ao Iraque sem mandato da ONU. Esta organização, aliás, é bastante respeitada e necessária na África, além da África do Sul ser candidata a membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Tudo isto faz com que a visita do presidente Bush deva revestir-se de certa relevância e muita sutileza.