Os recentes massacres de Bumia, cidade no leste da República Democrática do Congo (ex-Zaire), promovidos por milícias éticas, levaram muitos analistas a ressaltar que se iniciava um novo ciclo de violência neste sofrido país da África central. Com uma população de 52 milhões de habitantes e um território de quase dois milhões e meio de km², esta nação se caracteriza por possuir grandes riquezas minerais e uma pobreza imensa. Após a independência caótica em 1960 e o assassinato do líder nacionalista Patrice Lumumba em 1961, em 1965 o ditador Mobutu Sesse Seko assumiu o poder, e em 1971 rebatizou o país como Zaire. Apoiado pelas companhias mineradoras e salvo de diversos levantes populares pela França e pela Bélgica, ele oprimiu e pilhou seu povo, tornando-se o 10° homem mais rico do mundo, num regime caracterizado pela corrupção endêmica.
Com o fim da Guerra Fria, as condições mudaram e Mobutu foi obrigado a aceitar o multipardarismo e em 1992 perdeu toda a ajuda externa. Em 1994 o genocídio causado pelo conflito entre tutsis e hutus em Ruanda e Burundi, levou milhares de refugiados destas etnias ao leste do Zaire, habitado por comunidades dos mesmos grupos. Assim, logo o conflito dos vizinhos implantou-se no país e, em 1997, uma guerrilha bem sucedida levou ao poder um velho opositor de esquerda, Laurent Kabila, encerrando mais de três décadas de um regime odiado e enfraquecendo a posição francesa na região. O novo presidente rebatizou o país como República Democrática do Congo (não confundir com a vizinha Rep. Popular do Congo, capital Brazzaville).
Embora apoiado por Ruanda, Uganda e, mais discretamente, pelos Estados Unidos em sua conquista do poder, Kabila não cumpriu a agenda esperada pelas companhias mineradoras e por Washington, e reatou relações com a China, Cuba e Coréia do Norte. Além disso, o fim do regime anterior debilitara as já frágeis estruturas administrativas. Assim, em agosto de 1998 ocorreu um novo golpe de Estado, deflagrado por antigos aliados e apoiado por Uganda, Ruanda e Burundi (que enviaram tropas em apoio aos golpistas), países vinculados aos EUA. Mas o golpe fracassou, devido ao apoio que Kabila recebeu de tropas de Angola, Zimbaue e Namíbia.
Como o governo não possuía um exército regular, a guerra civil foi travada por milícias e tropas estrangeiras, que se financiavam explorando riquezas minerais, sobretudo ouro e diamantes, e madeira, devastando florestas equatoriais. Os três movimentos armados controlavam o próspero leste do país (40% do território), embora perdessem a região mineradora de Shaba (ex-Katanga), recuperada pelo governo. Os Acordos de Lusaka, assinados em agosto de 1999, não chegaram a ser aplicados, e em janeiro de 2001 Laurent Kabila foi assassinado em nova tentativa fracassada de golpe. Foi sucedido por seu filho, Joseph Kabila, que desenvolveu uma linha mais pragmática, dialogando com as grandes potências, implementando uma gestão liberal da economia e reabrindo as conversações com os rebeldes.
Assim, o Diálogo Intercongolês iniciou-se em fevereiro de 2002 em Sun City, África do Sul, numa mediação promovida pelo país anfitrião. O RCD (Agrupamento Congolês pela Democracia, pró-Ruanda) demorou a aceitar as condições, mas o RCD-ML (dissidente, Movimento de Liberatação, pró-Uganda) e o Movimento de Liberação do Congo (partidário de Mobutu no norte) aceitaram, e as forças estrangeiras foram retiradas. Mas a saída dos exércitos regulares criou um vazio de poder, que o governo central não teve condições imediatas de preencher, deixando espaço para a atuação de milícias étnicas, que haviam lutado em lados opostos. Assim iniciaram-se as matanças de Bumia, no nordeste do país.
Desta vez, contudo, a comunidade internacional reagiu a tempo, e a ONU autorizou uma operação de paz liderada pela França, que restaurou a ordem na região. Certamente muitos problemas ainda vão se manifestar, até que se estabeleça um regime político através dos mecanismos previstos pelo acordo de Sun City, pois a desorganização da economia, do Estado e da sociedade, especialmente os interesses criados na pilhagem dos recursos naturais durante o conflito, ainda não foram eliminados. Mas a tendência é a de que o país, que é membro da área de integração econômica da África Austral, patrocinada pela África do Sul, e da nova União Africana, venha a se estabilizar, juntamente com o restante desta parte do continente. Mas ao norte, como na Libéria, os problemas ainda continuarão.