A recente reunião do Conselho da União Européia, realizada em Porto Carras, Grécia, dia 20 de junho de 2003, revestiu-se de grande importância. Os líderes do velho continente aprovaram o documento "Estratégia de Segurança Européia", visando transformar a UE em uma potência global. O representante de Política Externa e de Segurança Comum, Javier Solana, deve apresentar uma proposta concreta baseada no documento, até dezembro deste ano. A iniciativa foi saudada como uma forma de encerrar as divergências surgidas por ocasião da guerra anglo-americana contra o Iraque.
Na verdade, a mídia apresentou o problema de forma inversa à realidade, numa manipulação flagrante. Foi dito que a Europa saia dividida, porque alguns países, como a Inglaterra, a Espanha e a Itália, bem como outros do leste europeu, resolveram apoiar os EUA, o que, implicitamente, teria corroído a autonomia européia. Ora, a novidade foi que a França, a Bélgica e, especialmente, a Alemanha se opuseram à guerra, o que constitui o fato novo, na medida em que os europeus anteriormente sempre apoiaram Washington, como no início dos anos 90 contra o próprio Iraque e a Iugoslávia, e em 2001 contra os Talibãs afegãos.
Assim, o que sinalizou positivamente o surgimento de um interesse próprio e autônomo pela Europa, foi mostrado como uma negativa dissidência pró-americana, que evidenciaria a falta de coesão e de autonomia pela UE. Além disso, procurou-se, através de um cálculo numérico, minimizar a postura anti-guerra do continente, contrapondo-se um grande número de países (secundários) a um grupo menor (na verdade as principais potências econômicas). E buscou-se desconsiderar o fato do eixo franco-alemão haver se aliado à Rússia, criando o "eixo da paz", igualmente mencionando apenas de passagem que França, Alemanha, Bélgica e Luxemburgo decidiram criar um exército europeu fora da OTAN (isto é, sem os EUA), dando outra dimensão à brigada franco-alemã.
Na verdade, os governos da Inglaterra, Espanha e Itália encontram-se em dificuldade politicamente e necessitam reencontrar-se com a opinião pública e o eleitorado de cada um. Os três estão localizados na Europa e no espaço do Euro (que a Inglaterra não poderá evitar eternamente) e suas relações econômicas com os EUA são modestas, não conferindo, portanto, base material para a aliança transatlântica. O mesmo pode se dizer dos países ex-comunistas do leste europeu, cujo ingresso na UE foi autorizado recentemente. Quanto a estes, de que adianta uma aliança militar sem cooperação econômica correspondente?
A performance da diplomacia francesa foi exemplar, mas a novidade foi a atitude da Alemanha, que depois de quase sessenta anos subordinada aos Estados Unidos, pela primeira vez disse não. Para ocultar a importância deste fato, argumentou-se que se tratava de uma medida meramente eleitoral, o que não é verdade. A economia alemã necessita urgentemente de um avanço da UE, que implique na defesa dos interesses globais da Europa. Berlim foi responsável pelo posicionamento crítico da Turquia quanto à guerra (e tem grande poder na Europa oriental) e uma das articuladoras mais ativas da aliança com Moscou, pois os interesses bilaterais são convergentes. Além disso, as forças alemãs no Afeganistão vêm sofrendo baixas, que repercutem negativamente junto à opinião pública.
Evidentemente, a diversidade de alguns interesses no seio da UE pode e será explorada pelos EUA, além do fato dos europeus não desejarem um confronto aberto com Washington, havendo a necessidade real de certo nível de reconciliação. Em certa medida, a Europa está sendo arrastada objetivamente a esta posição autonomista, sem grande consciência por parte de suas elites. E a divergência de interesses entre as duas margens do Atlântico deve crescer. A unidade da OTAN, por sua vez, não poderá ser plenamente restaurada se a União Européia finalmente estabelecer uma política externa e de segurança comuns. Não é uma tarefa fácil estabelecer tal mecanismo, mas o velho continente tem nos surpreendido cada vez mais.