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24 junho de 2003

O encontro Lula-Bush: o diálogo dos opostos

A reunião ocorrida dia 20 de junho de 2003 entre os presidentes Bush e Lula em Washington foi um encontro de alto nível, pois decorreu de um convite especial, teve uma longa duração, com a discussão de temas relevantes, e a delegação brasileira incluiu dez ministros. Críticos sem imaginação destacaram a "capitulação" da diplomacia brasileira frente aos Estados Unidos e, especialmente, à ALCA. Contudo, o encontro revela certa margem de manobra pela parte brasileira, e o reconhecimento de um papel de liderança na América do Sul e certa influência na grande diplomacia.

A administração Bush necessita recompor sua liderança e influência, depois de realizar a teimosia da guerra contra o Iraque. Quanto mais alguns aliados se opunham ao ataque, mais os EUA necessitavam realizá-lo, como forma de reafirmar sua contestada vontade. Uma vez reafirmada, chega o momento de ostentar uma liderança tranqüila, marcada pelo diálogo. Bush deve concorrer à reeleição em 2004 e necessita reforçar seu prestígio (abalado por mentiras como a existência de armas de destruição massiva no Iraque e a fraude do resgate da militar americana), que começa a ser questionado pela mídia americana e pela produção cinematográfica da Hollywood.

A Casa Branca, frente às crescentes dificuldades nas negociações da ALCA, necessita contar com o apoio brasileiro. Contudo, dificilmente a ALCA será estabelecida em 2005 no formato proposto anteriormente, mas talvez uma mini-ALCA seja possível, com liberalização comercial parcial, no mesmo formato do acordo assinado com o Chile este ano. Subsídios, barreiras não-tarifárias, patentes, compras governamentais e outros itens seriam encaminhados para a OMC, e Bush teria uma sigla para exibir ao eleitorado americano. Além disso, concretamente, a reativação das economias americana e brasileira parece ser o objetivo imediato, como forma de facilitar o comércio.

O primeiro ministro José Maria Aznar, íntimo aliado dos EUA, em contato telefônico com Bush, ressaltou a necessidade de auxiliar o Brasil, para evitar um excessivo protagonismo brasileiro nas Américas. Especula-se sobre uma possível ação americana contra Cuba, talvez uma invasão, que contaria com oposição frontal do Itamaraty, além dos problemas com a Colômbia e a Venezuela. Assim, o Brasil manteria certo nível de relacionamento com os EUA em caso de uma crise hemisférica. Da mesma forma que a administração Reagan, a de Bush Jr não se baseia apenas no uso da força.

Depois de reverter as expectativas americanas de que o governo teria políticas esquerdistas, Lula passou a ser "admirado" em Washington. Mas é preciso observar que a diplomacia do Brasil, ao contrariar alguns desígnios da potência hegemônica e ressaltar sua autonomia, criou uma razoável margem de manobra. Assim, chamou atenção para suas reivindicações sócio-econômicas e de obras de infra-estrutura com os vizinhos. Por outro lado, para enfrentar este inevitável e difícil diálogo entre opostos, a diplomacia brasileira preparou-se adequadamente, através do relançamento do Mercosul, politicamente acordado na última reunião do grupo, bem como de iniciativas junto aos países da Comunidade Andina, visando estabelecer uma integração sul-americana (iniciada por FHC).

Finalmente, o novo governo brasileiro suplantou a passividade do anterior e buscou alianças fora do hemisfério, como forma de ampliar seu poder de influência no âmbito internacional. A criação do Grupo dos 3 (G-3), com a Índia e a África do Sul, e as negociações com a União Européia, voltaram a dar ao país uma dimensão multilateral e global em suas relações internacionais. Este protagonismo junto ao Terceiro Mundo e a diversificação dos vínculos com o Primeiro Mundo dão também ao país certo cacife para intensificar a campanha pela obtenção de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.


 
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