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10 junho de 2003

O encontro do G-7/G-8 e a criação do G-3

O Grupo dos 7 (G-7), integrado pelos Estados Unidos, Canadá, Japão, Reino Unido, França, Alemanha e Itália, mais a Rússia (G-8), realizou seu encontro em Evian, França. Trata-se de uma espécie do Clube ou Fórum das maiores economias capitalistas do mundo, que juntamente com as demais economias industriais formam a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Com o fim da Guerra Fria e a desagregação da União Soviética, a Rússia foi convidada a integrar o grupo, como uma espécie de sócio honorário, com vistas a facilitar sua transição para a economia de mercado.

Neste ano, a novidade foi a tentativa de normalizar as relações entre seus membros, perturbada pela guerra contra o Iraque. Igualmente novo foi o convite a alguns países em desenvolvimento, como o Brasil, para participar de parte do evento. O presidente Lula, representando a América do Sul, apresentou seu plano de combate à fome e a proposta de converter 20% do serviço da dívida em recursos para financiar obras de infra-estrutura e relançar o desenvolvimento, além das habituais críticas ao protecionismo praticado pelos países ricos.

Mas, como era de se esperar, o encontro reservado dos membros do Grupo pouca atenção deu a esta agenda (apesar dos elogios em público), concentrando-se na condenação ao terrorismo e na tentativa de encontrar caminhos para relançar a estagnada economia mundial. Nem isto, entretanto, foi conseguido, pois permaneceram os problemas ligados à agricultura e os temas ligados ao meio ambiente não foram debatidos, pois o presidente Bush rumou para o Oriente Médio.

Neste contexto o Brasil, para manter o protagonismo alcançado e contornar o pouco caso dos países ricos para com as necessidades e reivindicações do Terceiro Mundo, manteve contatos de alto nível e conseguiu criar o Grupo dos 3 (G-3) junto com a Índia e a África do Sul. Os chanceleres Celso Amorim, Yashwant Sinhá e Nkosazana Dlamini-Zuma anunciaram que o Grupo promoverá a cooperação trilateral, a liberalização comercial recíproca e a unificação e fortalecimento de posições nos foros multilaterais. As negociações envolverão o Mercosul, a União Aduaneira da África Austral e, possivelmente, a SAARC (Área de Cooperação Regional da Ásia Meridional). Os três países manifestaram, igualmente, o desejo de atrair a Rússia e a China para o Grupo em um segundo momento, transformando-o em G-5.

A criação do G-3 constitui uma iniciativa oportuna, no momento em que os países do Sul necessitam se mobilizar em defesa dos seus interesses e para alterar a atual agenda mundial. Reunindo três lideranças regionais e grandes mercados emergentes, não representados em outros foros da mesma natureza, cria-se um fator de atração para a Rússia, que ocupa uma posição simbólica dentro do G-8, e para a China, que participa apenas da OMC. Se isto vier a ocorrer, o Grupo aglutinaria quase metade da população mundial (com seu mercado potencial) e considerável parcela da produção do planeta, podendo influir significativamente nas negociações multilaterais.

Mas mais do que tudo, a iniciativa de criação do G-3 demonstra o contínuo poder de mobilização da diplomacia do novo governo brasileiro, que em menos de seis meses no poder tem mantido um conjunto de ações contínuas em várias frentes. Numa época em que o sistema internacional tem sido marcado por divisões, vacilações e falta de um rumo construtivo, esta estratégia pode dar resultados positivos. Reafirmar a primazia do desenvolvimento, em lugar de guerras, é a maior contribuição que os países aspirantes a uma posição dentro de um sistema multipolar podem dar neste momento, especialmente porque grandes rivalidades estão surgindo dentro do G-7.


 
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