Outros artigos
03 junho de 2003

Mapa da rota: uma nova proposta de paz Israel-Palestina

Encerrada a guerra anglo-americana contra o Iraque, para surpresa de muitos, uma nova proposta de paz para a solução do conflito israelense-palestino foi apresentada. Um grupo integrado pela União Européia, Rússia, Nações Unidas e Estados Unidos apresentou um plano para a criação de um Estado palestino em 2005. Para tanto, seria necessário estabelecer um cessar-fogo entre as duas partes, com a Autoridade Nacional Palestina (ANP) controlando os radicais e detendo os atentados suicidas, e Israel se retirando das zonas palestinas autônomas (segundo os Acordos de Oslo) e cessando o cerco e a violência contra elas. A questão que se levanta é qual a razão da nova proposta e se, desta vez, dará certo.

Doze anos depois a história se repete, da primeira vez protagonizada pelo presidente Bush sênior, agora por seu filho George W. Bush. Quando o Iraque foi expulso do Kuwait e submetido a um embargo internacional, a Casa Branca impulsionou as negociações entre Israel e os palestinos em Madrid, em 1991. Houve inúmeros avanços e recuos, mas, em 1993, já na presidência Clinton, foi assinado o Acordo de Oslo (I) criando a ANP, que controlava a cidade de Jericó (Cisjordânia) e a maior parte da faixa de Gaza. Agora, derrubado o regime de Saddam Hussein e ocupado o Iraque, outro Bush exerce pressão para a assinatura de um acordo, o Mapa da Rota, que propicie a criação de um Estado Palestino em 2005.

Depois de mais uma humilhação infringida aos árabes e muçulmanos, e do enorme dano causado aos regimes aliados no Oriente Médio, os EUA necessitam fazer voltar o equilíbrio e consolidar sua presença na região, o que não será fácil. O presidente Bush, inclusive, já manifestou a intenção de criar uma área de livre comércio entre o seu país e o Oriente Médio. Mas para tanto, é necessário estabilizar a região, dando aos árabes uma compensação, ainda que psicológica. E sem a integração de Israel na região, isto é impossível, e a paz entre o Estado sionista e seus vizinhos depende de alguma solução aceitável para o conflito palestino. É necessário, igualmente, exercer alguma forma de liderança positiva, depois da enorme perda de prestígio que a guerra representou para Washington frente à opinião pública mundial, à Europa e às Nações Unidas.

Quanto aos fatores internos que desencadearam o processo, pode-se considerar que a direita israelense era contra os Acordos de Oslo, que foram negociados pelos trabalhistas. Ela tinha a esperança de reverter os acordos ou de dar-lhes um conteúdo menos expressivo, e possuía uma enorme energia que deveria ser extravasada. Por outro lado, a liderança palestina, representada por Arafat, acreditava que poderia extrair mais e mais concessões, e superestimou o papel dos EUA. Assim, o confronto era inevitável, e o nível de violência e os riscos políticos (sobretudo internacionais) eram tão grandes, que os Estados Unidos não tiveram condições de atuar. Além disso, a administração Bush (apesar dos seus cristãos radicais não gostarem de Israel) via no governo Sharon uma inspiração política.

Mas a segunda Intifada teve um custo elevadíssimo para ambos os lados. Israel sofreu enormes baixas com os atentados e sua economia encontra-se em sérias dificuldades. Quanto aos palestinos, tiveram seus territórios reocupados e sua infraestrutura política e econômica destruída, além do terror que sua população viveu. A pressão americano-israelense pela emergência de uma nova liderança palestina acabou vingando, com a nomeação do primeiro-ministro Mahmoud Abbas (ou Abu Mazen). Arafat representava a histórica resistência palestina, e seu afastamento significa para Israel tanto uma compensação psicológica (afastamento de um "velho inimigo") como uma garantia (relativa) de maior moderação e realismo por parte da ANP, que deveria negociar a partir da atual correlação de forças, abandonando reivindicações históricas.

Esgotado e sob forte pressão americana, Sharon pronunciou aquilo que era impronunciável: "pôr fim à ocupação", "dividir a terra" e "aceitar um Estado palestino". Mesmo enfurecendo os sionistas radicais (especialmente os partidos religiosos) e quebrando alguns dogmas de Israel, tal política é extremamente realista. Com a economia debilitada e sem perspectivas de eliminar os atentados suicidas pela força, ele teve de ceder. Se o governo perder a maioria (com a saída dos partidos radicais), sua nova política dará aos trabalhistas o pretexto para aceitar um governo de coalizão, pois 70% dos fatigados israelenses se dizem favoráveis à paz.

Assim, palestinos e israelenses aprenderam a conhecer seus próprios limites, por meio de uma guerra suicida, mas pedagógica. E mais uma vez fica claro que os governos de direita têm mais condições de assinar acordos desta magnitude, que envolvem grandes concessões. Evidentemente as forças contrárias de ambos os lados jogarão todas suas cartas (talvez as últimas), mas se não tiverem apoios externos significativos, elas fracassarão. Enfim, a Rota do Mapa será longa e difícil, mas desta vez tem alguma chance de sucesso. Mas tudo dependerá também da evolução mundial.


 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2005,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade