A realização da XVII Reunião do Grupo do Rio, realizada em Cuzco, e a posse do presidente argentino Néstor Kirchner, ocorridas na última semana de maio de 2003, representam acontecimentos convergentes que sinalizam o retorno da diplomacia e da integração sul-americanas. O Grupo do Rio foi estabelecido em dezembro de 1986, como um Mecanismo Permanente de Consulta e Concertação Política, reunindo os membros do Grupo de Contadora (México, Venezuela, Colômbia e Panamá) e do Grupo de Apoio à Contadora (Brasil, Argentina, Peru e Uruguai), tentando propiciar aos países latino-americanos um espaço de atuação autônoma nas relações inte
rnacionais.
A XVII reunião do Grupo foi importante, pois incorporou ao mecanismo diplomático o impacto da presença de um novo governo no Brasil e, dias depois, na Argentina. Esta nova realidade permitiu reforçar a política lançada pelos países sul-americanos de desenvolver a infra-estrutura física (transporte, comunicação e energia), como forma de relançar o processo de integração. O presidente Toledo, do Peru, propôs que os credores internacionais dos países da região destinassem 20% do serviço da dívida às obras de infra-estrutura. O Brasil do presidente Lula, por seu turno, dá à iniciativa uma importância estratégica, aprofundando qualitativamente a política esboçada pelo governo Fernando Henrique Cardoso em seu final.
Assim, o BNDES já iniciou o financiamento de obras visando à integração física sul-americana e o assessor Marco Aurélio Garcia revelou que o governo pretende duplicar os recursos para o programa, bem como buscar apoio do BID e outros organismos financiadores. E, ao encerrar-se o encontro, decidiu-se que os presidentes Lula e Fox (do México), que participarão do encontro do G-8 na França, deverão defender a proposta contida no documento "Consenso de Cuzco", de solicitar aos países ricos apoio para a iniciativa de converter parte do serviço da dívida em investimento em infra-estrutura regional. Ao mesmo tempo, através do presidente anfitrião, foi lançado um apelo pela retomada do crescimento econômico, pois a atual estagnação está gerando uma situação perigosa, capaz de conduzir a uma explosão social.
Já o presidente Kirchner, revelou a vontade argentina de mudar a política econômica que o país desenvolveu nos últimos quatorze anos, abandonando o neoliberalismo e buscando um modelo baseado em investimentos públicos e combate à pobreza. No plano internacional, o novo presidente manifestou a intenção de estabelecer uma aliança estratégica com o Brasil, resgatar o Mercosul e cooperar ativamente para a integração sul-americana. Chama atenção que o novo governo argentino evoluiu das "relaciones carnales" de Menem com os EUA para uma atitude de eqüidistância, fazendo com que a Casa Branca comece a se preocupar com o surgimento de um pólo autônomo Brasil-Argentina.
Daí o convite do presidente Bush ao presidente Lula para ir a Washington discutir a questão da ALCA, reconhecendo o papel que o Brasil desempenha. Neste intervalo entre a guerra contra o Iraque e a próxima, os EUA deverão se ocupar um pouco da América Latina, que evolui para um distanciamento da agenda norte-americana. Além do fracasso do segundo movimento contra Chávez (que acaba de celebrar um acordo com a oposição) e contra Cuba (Comissão de Direitos Humanos), a eleição brasileira, equatoriana e argentina (todos resultados desfavoráveis para Washington), ocorreu paralelamente a recusa do México, Chile e Honduras de votar no Conselho de Segurança a resolução autorizando Bush a fazer a guerra contra o Iraque antes dos inspetores concluírem seu trabalho.
Desta forma, o que se observa é o retorno da América do Sul ao protagonismo diplomático e ao processo de integração, com a afirmação paralela de agendas internas de desenvolvimento econômico e social. A atuação diplomática sul-americana, além disso, não se refere apenas ao plano regional, mas a uma atuação concertada de âmbito mundial. Além de participar reivindicativamente do encontro do G-8, a tendência é a de que uma constelação sul-americana (não exatamente um "bloco") venha a engrossar o apoio ao chamado "eixo da paz" (Paris-Berlim-Moscou), como forma de moderar a postura norte-americana nas relações internacionais, simultaneamente contribuindo para a construção de um mundo multipolar regido pelo sistema das Nações Unidas.