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20 maio de 2003

A guerra ao terrorismo está sendo vencida?

Os recentes atentados terroristas ocorridos na Chechênia, Arábia Saudita e Marrocos, atribuídos à Al-Qaeda e suas organizações associadas, demonstraram que a guerra contra este tipo de violência está longe de ser vencida pelos EUA. A ocupação de dois países, o Afeganistão e o Iraque, parece não haver contribuído para a erradicação do terrorismo e mesmo estes dois países estão longe de haver sido pacificado. Afinal, qual é o poder real desta rede terrorista? O caminho militar escolhido por Washington, é realmente a melhor forma de derrotar a Al-Qaeda?

A Al-Qaeda al-Sulbah ("a base sólida") foi fundada em março de 1988 pelo Sheik Dr. Abdullah Azzam, como "a ponta de lança do islã", e depois passou a ser liderada por Bin Laden. Constitui o primeiro grupo terrorista multinacional relevante, capaz de fazer com que do pré-moderno Emirado Islâmico do Afeganistão (então governado pelos Talibãs) pudesse partir uma ameaça contra a superpotência pós-moderna que é os Estados Unidos, embora muitos analistas duvidem que ele tivesse capacidade logística para perpetrar sozinho os atentados a Nova Iorque e Washington.

Já antes do 11 de setembro de 2001 a Al-Qaeda iniciou um processo de descentralização de sua infraestrutura, a qual foi intensificada após a ocupação do Afeganistão pelos Estados Unidos em outubro do mesmo ano. Durante três meses a rede Al-Qaeda sofreu deserções e perdeu seus campos de treinamento dentro do país. Mas a descentralização da infraestrutura e o continuado apoio tribal permitiram que ela se restabelecesse na fronteira afegã-paquistanesa. Nesta região também continua ativa a milícia talibã, sob o comando do Mollah Omar. Aliás, é interessante que as forças americanas não conseguiram capturar nenhum importante dirigente talibã ou da Al-Qaeda.

Dezoito mil soldados americanos, aquartelados em Cabul e na base aérea de Bagram mantém o governo do presidente Karzai, que carece de bases políticas e exerce seu poder apenas nos arredores da capital. O novo exército afegão não é uma força confiável e eficaz, e os ocupantes são obrigados a pagar aos chefes tribais para manter a guerra contra os guerrilheiros talibãs. Mas estes chefes entregaram aos norte-americanos apenas prisioneiros sem importância (que se encontram na base americana de Guantanamo, em Cuba), e nenhum líder. Sabe-se que o número dois da Al-Qaeda, Dr. Ayman Al-Zawahiri, joga hoje um papel ativo no comando da organização, permitindo a Bin Laden manter-se oculto. Os camponeses e pastores, obviamente, têm uma idéia da localização das cavernas, mas não fornecem informações.

Enquanto isto, talibã e Al-Qaeda realizaram uma série de atentados no Afeganistão e no Paquistão, inclusive contra os presidentes dos dois países. Ao mesmo tempo, fizeram com que seus aliados separatistas da Caxemira, Marakat-ul Mujahidin, desencadeasse ações na fronteira da Índia. A reação militar indiana levou o Paquistão a deslocar suas tropas da fronteira afegã para a indiana, deixando-a mal guarnecida e, com isto, permitindo ao talibã/Al-Qaeda utiliza-la amplamente como refúgio. Além disso, as ações terroristas atribuídas à Al-Qaeda espalharam-se pelo sudeste asiático e África Oriental (para onde foi transferida parte da infraestrutura), inclusive com um ataque a navios de guerra americanos em Cingapura.

Com relação aos atentados recentes, demonstram uma nova estratégia, direcionada aos países do Oriente Médio. Mas chama a atenção que não houve atentados durante a guerra, que poderiam perturbar os EUA, e somente depois dela, justamente em dois países que se opuseram ao ataque ao Iraque, a Rússia e Arábia Saudita. Em relação a esta última, sabe-se que um dos propósitos de Bin Laden é derrubar a dinastia saudita e, para evitar sua deslegitimação perante a população, ela obrigou os EUA a retirarem suas bases do país.

Por fim, pode-se observar que além da estratégia militar revelar-se pouco eficaz como forma de desbaratar uma rede terrorista que não está sediada em um país específico, a guerra contra o Iraque foi contraproducente. Os EUA, ao desencadearem este conflito por razões geopolíticas que pouco tinham a ver com o combate ao terrorismo, além de contrariar seus aliados e a opinião pública mundial, desarticulou o regime iraquiano que lutava contra o islamismo político (caso do xiitas), humilhou ainda mais o mundo árabe e muçulmano (estimulando o sentimento anti-americano) e colocou suas tropas em posição vulnerável em meio a um país caótico, onde seguramente serão vítimas de atentados por parte de grupos extremistas. Assim, pelos atentados recentes e projeções fáceis de fazer, pode-se acreditar que a guerra ao terrorismo está longe do fim. Se isto, por um lado, legitima a administração Bush, por outro faz com que a América tenha de gastar irracionalmente a energia que necessita para transformar sua estrutura produtiva e as relações com seus aliados, gerando uma ordem mundial estruturalmente estável.


 
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