A reafirmação da África no sistema mundial
A África do Sul pós-Apartheid também tem promovido ativamente o multilateralismo no continente africano. SADC, Coordenação para o Desenvolvimento da África Austral, foi transformada no início dos anos 90 em Comunidade, com atribuições mais concretas e adesão de novos países. Em setembro de 2001 a organização, que promove uma ativa integração na região, aprovou a criação de uma área de livre comércio entre os países membros ate 2008. A Organização da Unidade Africana, por sua vez, foi transformada em União Africana em julho de 2002, durante a reunião de Duban. O apoio sul-africano e os recursos prometidos pelo lider libio Kadafi (que já não está mais sob embargo internacional) foi decisivo para a ampliação dos objetivos da organização e a criação de condições para uma cooperação mais íntima entre os países do continente e para uma verdadeira integração. Tudo isto contribuiu para que algumas eleições transcorressem com tranqüilidade, como a do Quenia e a de Madagascar, vencidas pela oposição, esta última apoiada pelos EUA.
Mas a África também passou a integrar os grandes temas e problemas mundiais. Além das epidemias devastadoras, guerras civis, fomes, destruição ambiental e narcotráfico, o continente foi cenário de acontecimentos ligados a grande política mundial. Em julho de 1998 ocorreram atentados terroristas simultaneos nas embaixadas norte-americanas do Quênia e da Tanzânia, com um saldo de 250 mortos e cinco mil feridos. O atentado teria sido articulado pela rede Al Qaeda, o que levou o presidente Clinton a atacar com mísseis os campos de treinamento da mesma no Afeganistão.
Ao mesmo tempo, gracas ao grande protagonismo diplomático da África do Sul, o continente passou a sediar algumas Conferências Internacionais da ONU. Neste país teve lugar, em setembro de 2001, a III Conferência da ONU Contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e a Intolerância Correlata, da qual os delegados dos EUA e Israel se retiraram, como forma de boicotar o debate sobre a questão palestina. Em setembro de 2002 foi realizada em Johannesburgo a chamada Cupula da Terra (Rio + 10), sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Desta vez os EUA e os países da OPEP bloquearam o estabelecimento de metas para a energia renovável, enquanto o Brasil e a União Europeia buscavam um percentual comum.
Finalmente, no início de 2003, a União Africana tomou posição frontalmente contrária a qualquer ataque ao Iraque, sem a conclusão do trabalho dos inspetores da ONU e a aprovação pelo Conselho de Segurança. Assim, a África, lentamente, vai reafirmando-se e recuperando certo poder de barganha, como foi visto no caso do Iraque, quando os membros africanos do Conselho de Seguranca da ONU foram cortejados pelos EUA e pela França. A lideranca sul-africana e o retorno da Libia ao cenário regional são elementos importantes, ao lado da afirmação das organizações multilaterais regionais e continentais.
A China também tem se feito presente no continente negro, tanto por razões economicas (mercados e matérias-primas) quanto diplomáticas (combater a presença de Taiwan), o que tem sido acompanhado por um maior protagonismo francês. A histórica visita de Chirac a Argélia, em março de 2003, constitui um signo desta tendência e sinaliza para a possibilidade deste importante país afro-árabe encerrar sua guerra civil e voltar a ter um maior protagonismo econômico e diplomático nos assuntos africanos. Por fim, o bloqueio da situação no Oriente Médio indica que a África podera ter um papel mais relevante, na medida em que constitui uma retaguarda geopolitica desta região. Ao mesmo tempo, o estabelecimento de laços com o Mercosul, com a Ásia e com a União Européia, propiciarão, a médio prazo, melhores condições para a África.