Com o encerramento das operações militares convencionais no Iraque e o fim do regime de Saddam Hussein, começa a esboçar-se um novo mapa político no Oriente Médio. O proclamado poderio militar iraquiano não existia e a vitória anglo-americana foi relativamente fácil, mas agora se inicia a difícil fase de estabelecer um regime iraquiano estável. A ocupação militar norte-americano deve ser complicada, pois começam a emergir as contradições internas do Iraque, anteriormente contidas por um regime autoritário: curdos de várias facções, xiitas poderosos, um centro sunita enfraquecido e um governo oriundo de uma oposição dividida e com poucas bases de apoio interno.
Ao mesmo tempo, a situação social e econômica é desfavorável, além da população ter em seu poder umas três milhões de armas de fogo, que serão empregadas tanto com fins políticos como criminais. A queda da ditadura, por outro lado, gera um clima de ansiedade nos demais regimes, pró ou anti-americanos, todos eles autoritários. Apenas o Irã e o Líbano possuem eleições realmente disputadas. Por fim, a presença de tropas americanas gera um fator de reação que, num curto prazo, deve adquirir força, especialmente se forem instaladas bases permanentes no Iraque.
A fácil vitória militar, por sua vez, teve um custo político inesperado para Washington, face aos cálculos iniciais. A Turquia, a Arábia Saudita e o Paquistão adotaram uma política crítica, e tendem a agir com maior independência. A Turquia, além de limitar a presença militar americana, tem certo poder de influência no novo Iraque, numa postura anti-curda. Os sauditas, por seu turno, solicitam a retirada das bases americanas estabelecidas em seu território em função da anterior guerra contra o Iraque e, por esta razão, os EUA pensam em estabelecer bases neste último, bem como um controle sobre o petróleo. No caso da Arábia Saudita, a Casa Branca tem na memória o choque da perda de um aliado estratégico, como ocorreu em relação ao Irã em 1979.
Os custos da ocupação do Iraque devem ser qualitativamente maiores que no Afeganistão, onde uma guarnição estabelecida em Cabul e na base aérea de Bagram garante um governo sem poder real, sendo necessário pagar aos chefes tribais para combater os Talibãs, que continuam ativos. A lealdade destes chefes é duvidosa, e as tropas da Aliança do Norte permanecem sob certa influência russa. Além disso, a apreensão dos vizinhos iraquianos, pró ou contra os EUA, tem um peso maior que em relação ao Afeganistão (uma periferia sem petróleo).
Mas a questão central consiste no que fazer depois. Neste sentido, mais uma vez Washington procura agir pela linha de menor resistência, escolhendo o alvo mais fácil, no caso a Síria, país sem petróleo e encravado entre regimes pró-americanos (Turquia, Israel, Jordânia e, agora, Iraque). A Síria, aliada do Irã e próxima da França, controla o regime libanês e é o único país a confrontar Israel (através do grupo xiita libanês Hezbollah), para não falar do contencioso das colinas de Golã, ocupadas pelo Estado hebreu. É preocupante que, devido ao descaso em relação ao Direito Internacional, o ônus da prova não cabe mais ao acusador. Assim, o presidente Bush já acusou Damasco de possuir armas de destruição massiva, ter ajudado militarmente o regime iraquiano e estar dando refúgio aos lideres deste, sem levar em conta que eles são inimigos históricos e a Síria apoiou os EUA em 1991.
A visita do ministro das relações exteriores da França à Síria, Egito, Arábia Saudita e Irã, mostram que os europeus, com apoio da Rússia, não estão dispostos a permitir uma nova guerra nesta região, já fragilizada do ponto de vista geopolítico. Se Bagdá possuía uma situação político-diplomática frágil (agressora e ditatorial), embora estivesse no caminho da normalização, tal não é o caso de Damasco, que vive plena normalidade diplomática com a comunidade internacional. Mas a guerra seria tentadora para os EUA, pois criariam um espaço compacto sob seu controle e deixaria Israel sem adversários em seu entorno imediato.
Mas a verdadeira cruzada que Washington iniciou contra o mundo islâmico, com seus regimes "politicamente incorretos" e militarmente incapazes de se defender, arrisca a envolver os EUA em problemas complexos e custosos, política e economicamente. Por detrás da diplomacia russo-européia (apoiada pelo "silêncio" sino-japonês) e dos movimentos pacifistas, o mundo deseja o fim dos conflitos que desembocam em novos conflitos e a retomada do crescimento econômico, depois de três anos de estagnação global.