Em menos de um mês o regime iraquiano foi derrotado e o país ocupado pelas tropas anglo-americanas. Foi um resultado sem grandes surpresas para os que, desde o início, analisaram corretamente o problema. Agora, busca-se analisar as conseqüências e possíveis desdobramentos do conflito. Primeiramente, a previsível vitória militar americana teve um enorme custo político, que apenas começou a se manifestar. Os movimentos pacifistas transformaram-se numa influente corrente política internacional, que não refluiu com o final da guerra, até porque, os EUA já ensaiam ameaças contra a Síria.
Mas algo notável, que todos observam, mas a mídia não comenta, é que as armas de destruição massiva não apareceram, e que o "poderoso" exército iraquiano só existia na propaganda política. Enfim, a ameaça que o ditador do Iraque representava, era fictícia. Mesmo assim, algumas centenas (ou mesmo dezenas) de milicianos com armas leves e ultrapassadas, causaram embaraços e perdas às tropas americanas, desgastando a teoria da "guerra com morte zero". Por fim, a morte de jornalistas que realizavam uma cobertura objetiva, o caos consentido pelas tropas de ocupação e a misteriosa pilhagem dos museus, deixou no ar uma série de perguntas cujas respostas ainda causarão embaraços futuros.
Contudo, as principais conseqüências do conflito já eram observáveis em suas causas, ou seja, antes da guerra. O declínio da produção americana, o endividamento externo e interno e o excesso de importações (o déficit comercial anual, que era de 100 bilhões de dólares em 1990, atingiu quase meio trilhão no ano passado), fizeram o país depender agudamente da produção e do investimento estrangeiro, especialmente europeu e japonês. O saldo negativo nas contas americanas deve ser coberto, a cada ano, pelo ingresso maciço de capital externo. Além disso, o hiper-consumo doméstico torna o país dependente de outras áreas, que precisam ser mantidas sob influência dos EUA.
Mas a globalização e sua liberalização comercial criaram um mundo onde os blocos econômicos são uma realidade emergente, especialmente com o desaparecimento de qualquer ameaça séria à paz mundial, devido ao fim da Guerra Fria. Ora, esta dupla tendência está tornando os Estados Unidos uma super-potência relativamente dispensável, tanto em termos político-militares como econômicos, ainda que não imediatamente. A percepção dos riscos futuros contidos neste processo de perda de vitalidade, aliada à ilusão de poder decorrente do colapso do bloco soviético, fez os EUA optar por uma estratégia imperial, buscando construir uma nova hegemonia.
O problema é que os meios para tanto não mais existem. Se os Estados Unidos estão super-armados como nação, faltam-lhe os meios militares para poder controlar e estabilizar um planeta complexo, povoado e problemático. Mais ainda, os sucessivos governos não têm conseguido criar uma estratégia coerente e, menos ainda, aplicá-la sistematicamente, optando por uma linha de menor resistência, caso a caso. Não podendo manter o controle econômico sobre o Japão e a União Européia, muito menos desarmar ou desagregar a Rússia (única potência com capacidade estratégico-militar equivalente), Washington optou por desenvolver um militarismo teatralizado contra os mais fracos integrantes do "eixo do mal", os países árabe-muçulmanos, que não possuem capacidade de defesa.
Ao exagerar perigos que não existem na dimensão apregoada, a Casa Branca encontra um campo de conflitos que lhe permite resgatar sua utilidade militar para a comunidade internacional, que ao mesmo tempo assiste a um show de poder que recomenda maior compreensão para com as necessidades da potência "protetora". O problema é que o ritmo e a forma com que esta política está sendo desenvolvida tem produzido o resultado oposto.
A autonomia da diplomacia francesa ressurgiu com força, a Alemanha surpreendeu ao opor-se a Washington pela primeira vez, e a Rússia, considerada vencida, reapareceu na cena internacional, estabelecendo-se um eixo Paris-Berlim-Moscou, que representa exatamente o que os EUA desejariam evitar. O controle sobre o Oriente Médio, por sua vez, está longe de assegurado, pois o real problema é a ascendência cada vez mais precária sobre aliados antigos como Turquia, Paquistão e Arábia Saudita, os novos "elos fracos", que ameaçam escapar do controle. Assim, a principal conseqüência da guerra é o aprofundamento das contradições que existiam antes dela. Mas é preciso refletir mais sobre a nova percepção internacional dos EUA, e a forma como está processando os sinais emitidos pela comunidade internacional.
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