Persistência e "tribalização" dos conflitos africanos
A adequação da África aos parâmetros da chamada “nova ordem mundial”, contudo, não significava a solução dos problemas existentes. O fim da bipolaridade e do próprio conflito Leste-Oeste, agravado pelo desmembramento e desaparecimento da União Soviética em fins de 1991, fizeram com que o continente africano perdesse sua importância estratégia e capacidade de barganha, ao que se acrescentava a própria perda de importância econômica. A Guerra do Golfo, por sua vez, reforçara esta tendência. O resultado foi a marginalização da África no sistema internacional, e a desestrategização e tribalização dos conflitos e da política regional. Com armas menos modernas, financiamento das máfias e senhores da droga (cujo cultivo se expandia rapidamente em muitas regiões do continente), e intromissão de potências médias locais e externas, estes conflitos persistiram, até como forma de sobrevivência de elites e populações nas áreas mais afetadas. Alguns acordos de paz, como os de Angola, não foram respeitados, com a persistência da guerra e a devastação de amplas regiões.
No Chifre da África, tal evolução e suas contradições ficaram bastante evidentes. Pressionado por guerrilhas de base clânica, Siad Barre foi derrubado na Somália em fevereiro de 1991, cujo território foi dividido entre quatorze Senhores da Guerra, que lutavam entre si, enquanto a fome se alastrava pelo país. Em maio do mesmo ano, Mengistu Haile Marian fugia da Etiópia, depois que as guerrilhas regionais do Tigre e da Eritréia unificaram suas forças e avançaram sobre a capital. Curiosamente, ambos movimentos eram marxistas-leninistas de linha albanesa, e chegaram ao poder com o apoio dos EUA, após se converterem ao liberalismo político e econômico. Em maio de 1993, através de um plebiscito, a Eritréia tornou-se independente, com dois regimes “irmãos” nos respectivos governos. Isto não impediu que em maio de 1998 ambos entrassem em guerra, apesar de serem igualmente aliados dos Estados Unidos.
Já a Somália, foi palco de uma intervenção militar da ONU em setembro de 1992, majoritariamente composta por norte-americanos, com fins proclamados de distribuir ajuda humanitária. As facções somalis, especialmente a liderada por Mohamed Aidid, ofereceram uma resistência inesperada, causando muitas baixas aos ocupantes, que em março de 1994 começaram a retirar-se do país, devido aos elevados custos da operação. Este país que, quinze anos antes havia tentado criar uma Grande Somália, agora estava fragmentado em clãs armados, tornando-se um conflito tribalizado. Por outro lado, o chefe de um desses bandos, conseguira forçar a retirada de uma grande potência, mostrando a perda de importância estratégica da região. O Sudão, por sua vez, desde o golpe militar de 1989 tornou-se um Estado apoiado em leis islâmicas, praticamente proscrito da comunidade internacional pelos EUA e seus aliados regionais, prosseguindo até o presente a luta contra os rebeldes negros cristianizados e animistas do sul, estes apoiados pelo Ocidente e seus aliados regionais.
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