O primeiro ataque dos Estados Unidos ao Iraque, ocorrido nesta madrugada, através do lançamento de mísseis, ainda nao constitui o choque principal, o qual deverá ocorrer talvez esta noite. Trata-se de um ataque com fins de guerra psicológica, objetivando mostrar ao mundo, ao regime e a população iraquiana que os Estados Unidos executarão seu projeto pontualmente, sem que nenhuma resistência miltar ou oposição diplomática seja possível. O tom messiânico e o discurso dos falcões se materializam na ação militar, anunciada como fácil e rápida.
É difícil prever a duração do conflito mas, por um lado, sabe-se que a capacidade militar iraquiana está profundamente deteriorada, e a única estratégia possível é tornar a guerra custosa, concentrando-a nos centros urbanos. Contudo, por outro lado, Saddam Hussein está tão determinado quanto George W. Bush. O que não se sabe é se isto ocorre por não ter outra opção, já que as ofertas de exílio até agora apresentadas são inviáveis (no sentido da segurança da clique dirigente iraquiana) e/ou armadilhas, ou por guardar ainda alguma esperança diplomática ou militar. Este último aspecto é pouco provável, pois os opositores dos EUA dentro do Conselho de Segurança da ONU não tomarão qualquer medida em defesa do Iraque e uma anunciada onda de atentados só existe na imaginação de pessoas sem qualificação intelectual.
Assim, com mais ou menos baixas, a guerra já está militarmente decidida. O que é importante é o cenario pós-guerra, que poderá ter pequenas variações dentro de um mesmo padrão, dependendo dos custos militares e humanitários e das conseqüências econômicas. A determinação pouco sutil da Casa Branca expôs seus aliados, pois Blair, Asnar e Berlusconi sofrerão conseqüências eleitorais, enquanto a opinião pública mundial, e especialmente européia e, mesmo, norte-americana, deverá se expressar ainda mais nos movimentos pela paz. Mas o mais importante é que a posição da França, Alemanha e Rússia frente a esta opinião pública será muito favorável, e aqui na Europa já se fala na formação de um eixo Paris-Berlim-Moscou. A posicao da China, por incrível que pareça, é mais vacilante, e será analisada em outra oportunidade.
Assim, uma das conseqüências desta guerra certamente será uma luta pela revalorização da ONU, pois nela houve um verdadeiro debate e uma tomada de posição, com todo o planeta assistindo e discutindo. Além disso, a " velha Europa " levantou a voz, e este será o novo campo de batalha da grande diplomacia, especialmente porque a OTAN sai terrivelmente fraturada desta guerra. Mais do que o Iraque, a administração Republicana está danificando gravemente as organizações multilaterais, inclusive algumas que lhes são vitais, como a última. Então fica a pergunta: quem está no poder em Washington e qual o seu propósito?
A Casa Branca, hoje, é comandada por um grupo de falcões, vinculados a certos grupos religiosos e determinados interesses econômicos e militares. Sua visão é fortemente marcada pelo ressentimento de que nenhum presidente, inclusive Reagan, teria sido suficientemente forte e determinado para impor os interesses americanos. E se sentem incomodos frente à crise econômica e a complexidade do mundo. O Iraque como alvo constitui apenas um ponto mais fácil, na medida em que seu odioso regime e indefensável e o país não possui armamento estratégico para defender-se. O verdadeiro proposito constitui em reafirmar sua autoridade sobre o aliados, especialmente europeus, além de estreitar o controle sobre o Oriente Médio. Assim, assistiremos uma demonstração desmedida de força militar (com destruição desnecessária), para lembrar aos aliados da OTAN que seu poder de fogo ainda rege o mundo.
Certamente o petróleo faz parte do jogo, bem como a geopolítica da Ásia central, pois esta guerra representa a segunda fase de uma longa intervenção na Eurasia, com a finalidade de bloquear a reafirmação de potências terrestres como a Rússia e a China, evitando igualmente sua vinculação com um pólo econômico-tecnológico desenvolvido como a União Européia. Se a emergência de potências rivais é inaceitável para os EUA, a formação de um bloco eurasiano representa " seu pior pesadelo ". Assim, a administração Bush se lança numa aventura complicada, agindo de forma voluntarista e sem calcular os riscos e efeitos colaterais de suas ações, com o perigo de estar desencadeando uma nova guerra mundial, ainda que intermitente, pois depois do Iraque, ainda há uma longa lista de inimigos.
Finalmente, o problema oculto é que o declíno econômico dos Estados Unidos não poderá ser revertido por meios militares, que arriscam a desorganizar ainda mais um mundo já fragilizado, sobre o qual se apóia a economia mundial e a fragilizada hegêmonia que Washington necessita constantemente reafirmar. Assim, as conseqüências desta guerra estarão mais no nível do sistema mundial do que no Oriente Medio, e o Iraque e seu agonizante regime constituem apenas o ponto de fixação de uma estratégia muito mais ampla.
(Haia, 20/3/03, 11 horas GMT)