A construção dos Estados nacionais africanos
As relações internacionais dos países africanos representam uma enorme lacuna bibliográfica para o público brasileiro. Tenho recebido inúmeros pedidos para escrever sobre o tema, que consta entre as prioridades da política externa brasileira e conhece uma acelerada evolução atualmente. Numa seqüência de quatro artigos, analisarei a evolução diplomática dos países da África, desde o fim da Guerra Fria até a atualidade, que constitui o período de maior interesse e mais difícil de se encontrar em português. Inicialmente é necessário considerar que o continente africano se tornou plenamente independente apenas recentemente (desde os anos 60), sendo constituído por nações jovens, instáveis e ainda não consolidadas.
É importante descartar a visão segundo a qual a África é um continente voltado ao passado, num contexto de conflitos insolúveis, e mesmo irracionais do ponto de vista ocidental. As sociedades africanas estão passando por um processo semelhante ao atravessado por outras regiões do mundo, qual seja, a construção dos modernos Estados nacionais. Muito do que os europeus consideram absurdo na África, constitui apenas a imagem contemporânea de processos semelhantes aos de seu próprio passado nem tão remoto.
Quem se sente chocado pelas guerras de perfil étnico-tribal, simplesmente esqueceu os sangrentos conflitos religiosos e proto-nacionais das monarquias dinásticas européias, a construção pela força dos Estados nacionais europeus, que esmagaram os regionalismos (alguns dos quais continuam a fazê-lo ainda no início do século XXI) ou a expansão dos colonizadores americanos, que exterminaram as comunidades indígenas. Esta semelhança, contudo, é ainda agravada pela herança do tráfico de escravos e o colonialismo imperialista, pois, segundo o líder nacionalista africano Amílcar Cabral, "o colonialismo pode ser designado como a paralisação ou a distorção, ou mesmo como o termo, da história de um povo, e fator da aceleração do desenvolvimento histórico de outros povos".