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A rivalidade França - Estados Unidos: mito e realidade

Há quase um ano o presidente francês Jacques Chirac enfrentou uma dura prova eleitoral, quando o colapso dos socialistas deixou-o frente a frente com o candidato Le Pen, de extrema-direita. Intelectuais e esquerdistas apoiaram-no a contra-gosto no segundo turno, pois, segundo eles, a opção era entre "um idiota e um fascista". Os socialistas não entenderam por que foram varridos eleitoralmente, enquanto a extrema-esquerda trotskista e a extrema-direita da Frente Nacional acreditaram ter obtido uma vitória política. Seja como for, hoje Chirac é uma respeitada liderança francesa (com um apoio esmagador), européia e, mesmo, mundial.

Em agosto de 2002 escrevi neste site um artigo intitulado "União Européia: uma diplomacia neogaullista", onde apontei a emergência da atual política externa francesa e européia. Alguns comentaristas consideram a rivalidade franco-americana um mero fenômeno histórico-cultural ou um jogo de fachada, pois no momento decisivo ambos se colocariam de acordo, com Paris seguindo Washington. Os últimos meses e semanas, contudo, têm demonstrado que se trata de um processo mais consistente, de uma crescente cisão dentro da aliança ocidental.

A diplomacia gaullista
Efetivamente, quando chegou ao poder em 1995 Chirac tentou desenvolver uma diplomacia neogaullista, reafirmando a autonomia da França em relação aos EUA, como fizera De Gaulle nos anos 60. O herói da libertação francesa guardava um profundo ressentimento em relação aos anglo-saxões (EUA e Inglaterra) pelo tratamento de inferioridade recebido durante a II Guerra Mundial e pela tentativa de evitar que a França participasse da ocupação da Alemanha e obtivesse um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Graças ao apoio da URSS e à determinação do nacionalismo francês, o país pôde tornar-se um dos grandes poderes.

Mas, mais do que isto, De Gaulle compreendeu que os EUA desejavam uma Europa reconstruída e forte economicamente, mas sem autonomia diplomática e militar nem unidade política. Mais ainda, que a Inglaterra representava um "Cavalo de Tróia" norte-americano dentro da Europa. Assim, ele aproximou-se da Alemanha ocidental e criou o eixo Paris-Bonn, evitou uma grande dependência em relação às finanças americanas, contribuiu para a coexistência pacífica com o bloco soviético e retirou-se da OTAN em 1966, para defender a soberania francesa e sua autonomia dentro do bloco ocidental. Mas ele caiu após as revoltas de 1968.

Chirac na defensiva
Chirac também foi submetido a uma brutal pressão, tendo que interromper seus testes nucleares e, para não ser ultrapassado pelos acontecimentos, foi obrigado a reintegrar algumas instâncias da OTAN, quando Clinton decidiu pela intervenção na Bósnia em 1995. Sua presença nos Bálcãs foi pouco produtiva e a vitória legislativa dos socialistas em 1997 deu a Jospin o cargo de primeiro-ministro. Assim, a França, contrariando seus próprios interesses, apoiou a OTAN na guerra do Kosovo, contra a Iugoslávia.

Mas então teve inicio a instabilidade financeira internacional, o governo Bush e a "guerra ao terrorismo" após o 11 de setembro. O socialista Jospin, que praticava uma política doméstica neoliberal e uma diplomacia pró-americana, foi fragorosamente derrotado nas eleições de 2002. Chirac não apenas compreendeu o recado das urnas, como pôde desenvolver a política que esboçara cinco anos antes. Os votos dados à extrema-esquerda e à extrema-direita sinalizavam, entre outras coisas, a recusa ao neoliberalismo de inspiração anglo-saxônica e sua globalização e a reafirmação da autonomia francesa.

Chirac e o neogaullismo
Quando Washington sinalizou sua intenção de atacar o Iraque e, entre outras coisas, pressionou para o afastamento do diplomata brasileiro José Bustani da Organização para a Proscrição de Armas Químicas (OPAQ), Chirac passou à ofensiva. Paris já vinha propondo o fim do embargo ao Iraque, retomara os chamados vôos humanitários à Bagdá (enfurecendo Washington e Londres) e assinara acordos econômicos e de prospecção de petróleo com o regime de Saddam Hussein. Passou também a opor-se à guerra no Conselho de Segurança da ONU e na União Européia.

Nesta última, contou com o apoio do social-democrata alemão Schroeder, outro que aprendeu as lições das urnas, pois conseguiu reeleger-se por opor-se à guerra (uma exigência da opinião pública alemã), recuou em suas políticas neoliberais e auxiliou decisivamente a população da ex-Alemanha oriental, castigada pelas inundações. O eixo franco-alemão foi restaurado, exercendo pressão na OTAN e na UE, além de estabelecer certa concertação diplomática com a Rússia e, em menor medida, com a China. Apesar de todas as pressões para aceitar (já não se fala mais em "apoiar") a guerra, a França continua lutando para que os inspetores concluam seu trabalho e a ONU seja respeitada.

Além disso, Chirac enviou ao presidente Lula sinceros votos de sucesso, oferecendo cooperação e pedindo que o Brasil contribua para a construção de um sistema mundial multipolar. Ao mesmo tempo, mostrou-se disposto a apoiar um acordo UE-Mercosul, como forma de criar um contra-peso a ALCA. Finalmente, sua decisiva oposição à guerra tem despertado simpatias no movimento pacifista internacional, ao mesmo tempo em que este se sente apoiado por um país importante, deixando de ser tão "utópico".

A visita à Argélia
Agora, Chirac realiza uma histórica visita à Argélia (a primeira de um presidente francês desde a independência, ocorrida em 1962), cuja importância diplomática é desnecessário ressaltar. A política africana é retomada, depois de cinco anos de recuos, reforçando a presença francesa na região e contribuindo para a solução da guerra civil argelina, que já dura onze anos. Mas a Argélia também é um país árabe, muçulmano e produtor de petróleo. O apoio econômico e diplomático a este país é estratégico na atual conjuntura, pois ele exerceu um papel destacado no mundo árabe, na OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e no Movimento dos Países Não Alinhados, o qual acaba de propor um embargo de petróleo aos países que atacarem o Iraque (por iniciativa da Malásia). Além disso, Chirac passa a ser visto com um dos poucos amigos ocidentais dos árabes e muçulmanos, tão estigmatizados nos últimos anos.

Assim, a aceleração do processo desejada por Bush, começa a ser apossada pelos seus aliados que não desejam o conflito. A França almeja garantir mais autonomia para a Europa, a defesa dos interesses econômicos franceses, a manutenção de uma zona de influência própria e ser mais respeitada pelo líder da aliança ocidental, colocando ao mesmo tempo um limite às ações unilaterais da administração Republicana. Enfim, apesar da diplomacia francesa ter uma estreita margem de manobra, ela tem atuado de forma ousada e criativa, surpreendendo o mundo a cada semana. Dificilmente as coisas voltarão a ser totalmente iguais a antes.


 
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