Entre 1991 e 2001 houve uma estranha e sutil cumplicidade entre Bagdá e Washington, pois o embargo permitiu a Saddam manter o seu poder. O regime iraquiano jogou com os inspetores da ONU, pois esta era sua única maneira de fazer política externa. Depois iniciou um processo de normalização diplomática com os europeus, os vizinhos árabes, a Rússia e a China. Mas as coisas mudaram depois do 11 de setembro. Fatores geopolíticos e econômico-estratégicos, como o controle da região e do petróleo (preservando-o para o futuro e privando potências em desenvolvimento como a China, em meio à emergência de uma nova matriz energética), foram decisivos, além de representar uma oportunidade de propiciar uma demonstração de força e a construção de uma nova geração de armamentos.
Sentido que a hora da verdade chegou, e sem meios para resistir, Saddam teve medo e fez todas as concessões solicitadas, numa desesperada tentativa de sobreviver. Ganhando a simpatia de algumas potências, mas sem demover os EUA de seu intento, ele recuou suas forças para as cidades, como meio de evitar uma deserção em massa e utilizar a população como escudo humano. A máquina militar americana terá, então, que invadir os centros urbanos, sofrendo baixas e causando um elevadíssimo número de mortes entre a população, que teria um custo político-diplomático excessivamente alto. Tudo isto para evitar o ataque que, uma vez desencadeado, produzirá o colapso do cambaleante regime iraquiano, ou seja, o resultado do conflito será determinado antes do seu desencadeamento, no plano diplomático.
Como Saddam não possui armas de destruição massiva, ou ao menos os meio logísticos para empregá-las, os EUA estão dispostos a atacar (o que não fazem com a Coréia do Norte, que as possui). Um regime opressivo desaparecerá, mas através de uma forma diplomaticamente preocupante, e a vitória gerará ainda mais instabilidade e constituirá, muito provavelmente, o caminho para outras guerras, sendo o próximo alvo o Irã, como já foi insinuado. Como as Guerras Mundiais demonstraram, é fácil abrir o caminho para um ciclo de conflitos; o difícil é desengajar-se dele e construir um cenário mundial estável e seguro.