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Bush, o Iraque e os limites de uma super-potência

Diversos especialistas em relações internacionais, de forma profética e apressada, haviam anunciado que o século XXI seria americano (alguns, como Alfredo Valladão, ainda pensam assim), afirmativa fortemente abalada após o 11 de setembro. Com a auto-estima fortemente abalada e necessitando provar ao mundo que nada havia mudado e a hegemonia americana seguia inabalada, os Estados Unidos desencadearam a "guerra ao terrorismo" e, agora, ao "eixo de mal". Ao mesmo tempo, solenemente desconsideraram as organizações internacionais e, mesmo, seus próprios aliados da OTAN e do mundo árabe. Mas toda a força e auto-suficiência mostrada até agora pela administração Republicana, têm tido magros resultados e enfrentado crescentes dificuldades.

Apesar da derrubada do regime Talibã e da instalação no Afeganistão de um regime aliado, o governo Bush não logrou qualquer vitória esmagadora sobre um inimigo invisível como é o terrorismo. Aliás, uma tarefa impossível de ser lograda militarmente e no curto prazo. É bem verdade que a persistência de uma virtual ameaça terrorista tem sido habilmente explorada pela Casa Branca para legitimar suas iniciativas unilaterais. Mas mesmo neste sentido, parece que a comunidade internacional já começou a superar o trauma inicial do 11 de setembro e não está mais disposta a endossar qualquer iniciativa norte-americana.

Tal tem sido o caso do Iraque. Não encontrando apoio dos demais membros do Conselho de Segurança da ONU, exceto da Grã-Bretanha (e mesmo assim com dificuldade), a operação militar contra Saddam Hussein teve de ser adiada e não pôde ser desencadeada antes das eleições legislativas de novembro de 2002, como almejado. Foi necessário respeitar a deliberação do CS da ONU de enviar os inspetores de armas novamente ao Iraque, o que Saddam aceitou. Assim, os aliados árabes e europeus dos EUA, bem como a China e a Rússia fizeram valer o seu ponto de vista e produziram novo adiamento.

Apesar dos EUA manterem os preparativos militares e haver obtido o apoio de países de segunda linha na Europa (Espanha, Itália e do obediente leste europeu) e do Oriente Médio (Kuwait, Bahrein e Qatar), a estratégia não foi convincente. Faltam recursos financeiros e a lista de apoiadores acaba desmoralizando a iniciativa, pois os grandes e importantes continuam exigindo provas concretas. Por outro lado, a recusa destes países tem, além dos aspectos diplomáticos, uma importância econômica. Na guerra anterior contra o Iraque, os EUA entraram com três quartos das armas e tropas, e apenas um terço dos recursos financeiros. Ou seja, a Casa Branca necessita não apenas da aprovação política, mas dos recursos dos aliados.

Paralelamente, sinais de debilidade emergem com os escândalos das grandes corporações, envolvendo o alto escalão do governo, a crise econômica persistente e a falta de perspectiva de recuperação e o acidente com a nave Colúmbia, que revela a improvisação, o voluntarismo e a falta de recursos dos grandes programas do governo. Além disso, o acidente repercutirá no adiamento do chamado Escudo Anti-Mísseis, da mesma forma como a explosão da Challenger em 1986 inviabilizou o projeto Guerra nas Estrelas (Iniciativa de Defesa Estratégica) durante o governo Reagan.

Assim, o uso da força não tem escondido as debilidades e os limites da super-potência americana. Pelo contrário, o país ganha uma visibilidade desfavorável. Assim, é necessário refletir de maneira profunda sobre os fundamentos da diplomacia americana. Neste sentido, a comunidade acadêmica brasileira conta com um novo e valioso instrumento, graças a recente publicação de "A Política Externa dos Estados Unidos", tese de doutorado da americanista Cristina Pecequilo (editora@ufrgs.br). Esta obra, volumosa e rigorosa, nos mostra os meandros, contradições, forças e fraquezas da diplomacia da super-potência que sobreviveu à Guerra Fria, mas que tem dificuldades em encontrar seu lugar no mundo globalizado.


 
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