Dois fatos novos marcaram neste janeiro de 2003 os Fóruns Social e Econômico Mundiais: a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva e a visível mudança da pauta no Fórum de Davos. O III Fórum Social Mundial (FSM), realizado em Porto Alegre, foi marcado por um espírito de otimismo, devido à vitória de Lula nas eleições presidenciais brasileiras. Enfim, o país anfitrião passou a ser governado por um projeto com grande afinidade com a pauta social do FSM, contando com a presença do presidente e o afluxo de cem mil pessoas, oriundas de quase todas as nações. Paralelamente, o mundo conhece a ascensão de um vigoroso movimento em favor da paz, presente em quase todos os países.
Ao lado das tradicionais críticas à globalização neoliberal e do detalhamento de propostas sociais, a agenda de defesa da paz recebeu grande ênfase, num momento de forte tensão entre os Estados Unidos, o Iraque e a Coréia do Norte, com fortes possibilidades de eclosão de guerra contra Bagdá. Mas sem dúvida a grande novidade foi a entrada em cena de dirigentes e representantes de governos, o que reforçou o peso político do FSM. Além disso, o fato do governo do país que abriga o evento estar identificado com o FSM, gerou um clima de triunfo, especialmente porque o governo Lula adotou uma postura bastante ativa no campo internacional e social.
Enquanto isto, o clima em Davos era frio e sombrio não apenas em termos climáticos. Um fortíssimo esquema de segurança protegia o Fórum Econômico Mundial (FEM) e a elite nele presente. Diferentemente dos anos anteriores, quando a globalização e as políticas liberais de abertura econômica marcavam a agenda do evento, neste o debate sobre a crise e a instabilidade financeira, a ameaça de guerra (e seu impacto econômico negativo) e a necessidade de uma agenda social internacional foram a tônica dominante, muito distantes dos desgastados elogios ao mercado. A presença de Lula como uma grande estrela e personalidade respeitada (como "o novo") abriu um espaço de diálogo entre os dois Fóruns e, indiretamente, propiciou a legitimação internacional do FSM. Basta ver que a cobertura da mídia a este último desta vez foi intensa, rompendo o muro de silêncio em torno dele.
Evidentemente certa ultra-direita em Davos viu Lula como "lobo em pele de cordeiro" e certa ultra-esquerda em Porto Alegre considerou que o presidente brasileiro não deveria ir ao FEM, pois estaria traindo sua plataforma. Mas foram vozes minoritárias, e a performance de Lula abriu espaço aos que desejam que a agenda social, democrática e ambiental sejam incluídas na globalização. Num mundo que vive dificuldades e tensões acumuladas, estes novos fatos políticos criaram um canal de expressão diplomática para as sociedades se expressarem no plano mundial, logrando influir no rumo dos acontecimentos mundiais.
Além do reforço do FSM e das mudanças observadas na agenda de discussões do FEM, chama atenção o expressivo crescimento dos movimentos pela paz em todos os países, inclusive nos Estados Unidos. Ultrapassando em densidade os protestos contra os organismos financeiros internacionais, estes movimentos têm induzido muitos governos, como os da Alemanha e da França, a posicionarem-se contra a guerra. Eles lembram o movimento contra a guerra do Vietnã, só que agora são preventivos, visando impedir o desencadeamento do conflito. Assim, se por um lado a administração Bush parece determinada a ir à guerra, por outro se estabelece uma forte corrente pacifista, movimentando as relações internacionais.