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Neonazismo, revisionismo e extremismo político


Passeata contra os extermistas, em Hamburgo, na Alemanha
A recente vitória eleitoral da extrema-direita na Áustria, o crescimento vertiginoso dos atentados e atos de violência neonazista na Europa, a expansão do sentimento racista e xenófobo, bem como o sucesso de obras simpáticas em relação às ideologias que embasam tais fenômenos, constituem um dos mais preocupantes fenômenos políticos do final do século. Recentemente, o Chanceler alemão Schroeder lançou uma campanha política para mobilizar a sociedade contra esta forma de extremismo. Ao mesmo tempo, a justiça da França tem procurado obstaculizar judicialmente os sites neonazistas, a maioria dos quais estabelecidos em provedores norte-americanos, o que dificulta a ação das autoridades européias.

Neste contexto, o Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados da UFRGS, através da programação "Fim de Século/ Novo Milênio", promoveu de 7 a 11 de agosto o "Seminário Internacional Neonazismo, revisionismo e extremismo político: desafios para os Direitos Humanos", com o Pós-Graduação em Comunicação e em História, Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Federação Israelita do RGS e Gov. do Estado do RGS,. O evento, coordenado pelo Prof. Luis Milman, reuniu especialistas sobre o tema, como o Prof. Dietfrid Krause-Vilmar (Univ. de Kassel/Alemanha), Roney Cytrynovicz, Hélgio Trindade, Paulo Vizentini, René Gertz, L. Milman, Voltaire Schilling, Luis Dario Ribeiro e Jair Krischke.

O evento tratou dos seguintes temas: o nazismo dos anos 20 aos 40, a literatura revisionista e negacionista e o ressurgimento dos movimentos de extrema-direita nos anos 80 e 90. Destacou-se o papel da crise econômico-social como potencializadora das tendências político-ideológicas irracionalistas que provinham do século XIX e foram agravadas com a I Guerra Mundial e a Revolução Soviética, como caldo de cultura que propiciou a ascensão do movimento nazista numa Alemanha em crise. Contribuições acadêmicas inovadoras como a do "Nazismo como colonização da própria sociedade" e o papel ativo da maioria dos médicos e da medicina da época, calcada no princípio da eugenia, foram destaque. Também foi enfocada a complexa relação entre germanismo e extrema-direita no sul do Brasil e mapeados os movimentos nazi-fascistas na América Latina, com destaque para o integralismo brasileiro.

No tocante ao segundo tema, o "revisionismo" representa uma tendência de contestar a historiografia consagrada sobre a II Guerra Mundial e, no limite, a negar grandes crimes do III Reich contra a humanidade, como o Holocausto ("negacionismo"). Os conferencistas destacaram as metodologias de trabalho sobre a questão da memória, como forma de evitar a banalização ou falsificação do relato histórico, e traçaram um amplo painel sobre a literatura de perfil revisionista, destacando-a como estratégia anti-semita destinada a abrir caminho e legitimar o ressurgimento de movimentos neonazistas e de extrema-direita à luz do dia.


Enterro de um neonazista na Bielorussia
O caso da Alemanha foi analisado, especialmente no que se refere às formas manipulativas empregadas no uso de documento descontextualizados, dos quais aspectos marginais são empregados como "provas" da negação do extermínio de judeus e outros povos pelo governo nazista. O caso do RS, que possui uma grande editora revisionista, foi analisado, enfatizando as medidas judiciais que tem sido tomadas contra este tipo de literatura, bem como suas conexões políticas locais e mundiais.

Finalmente, os fatores do ressurgimento do neonazismo e da extrema-direita nos anos 80 e 90 foram abordados, como decorrência do fim da prosperidade (especialmente o desemprego), o término da Guerra Fria e as incertezas ligadas à globalização. Além disso, esses movimentos sobreviveram desde o final da II Guerra, encobertos pelos slogas anti-comunistas, que faziam com que se apresentassem como parte do "mundo livre". Quanto à Áustria, não se trata ainda da ascensão do neonazismo, mas de uma forma de populismo calcado num discurso da extrema-direita, De qualquer forma, ainda que numericamente limitados, esses movimentos representam uma espécie de "ponta do iceberg" de um quadro político preocupante, com a emergência do racismo, da xenofobia, atos de violência política e deterioração da convivência democrática.

O evento teve uma audiência qualificada, grande inserção nos meios de comunicação de massa, e terá a edição de um livro com as conferências, a ser lançado na Feira do Livro de Porto Alegre, numa co-edição CORAG/ Editora da UFRGS. Assim, o alto nível acadêmico do seminário constitui uma contribuição da Universidade para o debate político acerca das preocupantes realidades que se configuram na virada do Milênio.

25 / 08 / 2000

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