A Europa e as Américas face ao reordenamento mundial
A influência implícita que a União Européia (UE) exerce em relação às negociações relativas à implantação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) levanta questões complexas, relacionadas aos próprios objetivos da integração hemisférica tal como está sendo proposta atualmente. Esta, por sua vez, tem sido abordada numa perspectiva jornalístico-economicista, considerando questões básicas como dadas. A relação entre a UE e a construção da ALCA envolve, concretamente, as complexas vinculações entre UE-Mercosul e Mercosul-NAFTA. Estas geralmente são visualizadas como uma relação em forma de "V", enfocadas como mera diplomacia de barganha por parte do Mercosul. A hipótese deste ensaio é a de que esta relação tem o formato de um "Ñ", por considerar a ALCA como um fenômeno primordialmente político-estratégico, que transcende o âmbito hemisférico.
Durante a conjuntura imediatamente posterior ao fim da Guerra Fria, a situação da América Latina foi de relativa marginalização no cenário internacional. Tendo os processos de redemocratização atingido um nível avançado e irreversível e já iniciadas as aberturas econômicas no continente, a atenção de Washington voltou-se prioritariamente para o antigo campo soviético e para a Ásia Oriental. Neste quadro de relativo abandono em termos estratégicos e econômicos, o presidente Bush brindou os países latino-americanos com as promessas da Iniciativa para as Américas em 1991, que anunciava a intenção de formar uma Zona Hemisférica de Livre Comércio, do Alaska à Terra do Fogo. Mas a iniciativa não foi levada adiante, uma vez que a abertura das economias latino-americanas já estava propiciando um significativo aumento das exportações americanas para a região. Isto era particularmente importante para os Estados Unidos, que buscavam reconstruir sua preponderância dentro da "Nova Ordem Internacional" num low profile, que lhe permitisse manter a liderança mundial a um custo mais baixo.
O fim do confronto Leste-Oeste, por sua vez, propiciou a intensificação do processo de globalização e anulou um importante fator de coesão entre os países do Ocidente, acelerando-se ainda a construção de blocos econômicos regionais. Estes passaram a vivenciar uma competição mais intensa, com a Ásia Oriental se consolidando como área de maior crescimento econômico do planeta e com a Comunidade Européia avançando seu processo de integração em dezembro de 1992. Tal conjunto de fenômenos tornava ainda mais difícil a inserção internacional das nações Ibero-Americanas no início da década de 90.