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João Paulo II e a diplomacia do Vaticano



O pontificado do Papa João Paulo II, que acaba de falecer, constituiu uma era de intensa participação do Vaticano na política internacional. É bastante difícil fazer um balanço da atuação do primeiro Papa polonês, conhecido por suas dezenas de viagens internacionais e por haver contribuído substancialmente para a derrocada dos regimes socialistas do leste europeu, particularmente o da Polônia. Mas, desde então, ele se notabilizou pelas críticas ao "capitalismo materialista".

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Os Papas João XXIII (1958-1963) e Paulo VI (1963-1978), protagonistas da realização do Concílio Vaticano II, que buscou modernizar a atuação da Igreja Católica num contexto em que esta perdia fiéis, ficaram conhecidos por terem aberto espaço para a Teologia da Libertação e por haverem negociado certa acomodação com a União Soviética. Em troca de abandonar a retórica anticomunista da Guerra Fria e de defender a paz e o desarmamento, o Vaticano obteve uma substancial melhoria quanto às liberdades religiosas nos países socialistas. Paulo VI foi o primeiro Papa a realizar viagens para fora da Itália (uma meia dúzia).

Sua sucessão foi rápida e inesperada. João Paulo I, o menos cotado, foi eleito, num contexto de divisão entre tradicionalistas (opostos à linha dos anteriores) e modernizadores. Daí a escolha de um nome menos comprometido. Mas o "Papa sorridente", que era conservador quanto às questões de fé, defendia reformas institucionais, um enfoque social ("distribuir as riquezas da Igreja aos pobres"), num comportamento errático e a manutenção da coexistência pacífica com os países socialistas. Seu sucessor, o polonês Karol Wojtila, já mantinha um diálogo com o Assessor de Segurança do governo Carter, Zibgniew Brzezinski (também de origem polonesa) e estava fortemente envolvido com a oposição polonesa. A aproximação entre os EUA e o Vaticano levaria ao estabelecimento de relações diplomáticas e a uma aliança para derrocar o regime polonês.

Apesar de adotar o mesmo nome de seu antecessor, João Paulo II foi bastante diferente. Contraditoriamente, enquanto defendia o engajamento do clero em questões políticas no leste europeu, procurava desgastar a Teologia da Libertação na América Latina e buscava o desengajamento dos padres da política. Em 1981 sofreu um atentado, num contexto de escândalos envolvendo a Loja Maçônica P2 e o Banco Ambrosiano (que pertencia ao Vaticano), a KGB e os ultraconservadores católicos ligados ao Monsenhor Lefebvre. Este atentado, assim como a misteriosa morte do seu antecessor, nunca foram investigados em profundidade e continuam a dar margem às mais variadas teorias conspirativas.

Apesar do "Papa atleta" ter perdido muito da sua saúde, isto não impediu uma ação ecumênica extremamente ativa, procurando um diálogo com as outras igrejas cristãs, visitando vários países e criticando o aborto, o divórcio e buscando recuperar os fiéis perdidos. Com a queda do socialismo no leste europeu, João Paulo II realizou uma interessante inflexão política, passando a atacar os efeitos danosos do "capitalismo selvagem" e da globalização, bem como a política neo-hegemônica dos Estados Unidos e suas constantes guerras.

A agenda social e a defesa dos trabalhadores voltaram a ser um ponto forte de sua atuação, numa luta contra o materialismo e o individualismo que caracterizam a sociedade de consumo. Mas nos últimos anos sua saúde, extremamente debilitada, impediu-o de exercer uma ação mais eficaz. Agora se inicia a luta pela sucessão deste Papa, sobre o qual é difícil estabelecer um juízo definitiva. Mas todos concordam que ele exerceu um papel relevante na política mundial, o que o Vaticano não realizava há duzentos anos.

03/04/05

    
pg.
 
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