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A Integração Sul-Americana é viável?



Na Reunião de Cúpula Sul-Americana de Cuzco, Peru, foi assinado um ambicioso acordo de integração da América do Sul, impulsionado basicamente pela diplomacia brasileira. Embora saudado por alguns como um grande avanço, o acordo é considerado uma utopia política pelos críticos, enquanto a Argentina demonstra um comportamento reticente e problemático. Além disso, o Chile manifesta uma postura de que, se não é contra, aponta para dificuldades consideradas insuperáveis, como as baixas tarifas que já pratica, que estão abaixo do rebaixamento proposto. Daí muitos se perguntarem: a integração sul-americana é viável?

A proposta apresentada não é apenas de cooperação comercial e complementação econômica, mas também de integração da rede de transportes, como a conexão rodoviária transoceânica Atlântico-Pacífico na região amazônica e ferroviária na região platina, com os portos chilenos, bem como hidroviária entre as bacias amazônica, platina e caribenha (Rio Orinoco). Além disso, haveria a integração energética (oleodutos, gasodutos e eletricidade, além de empresas mistas) e a cooperação político-diplomática (que envolve também uma dimensão comum de defesa).

Essa iniciativa decorre da projeção da economia brasileira e da diplomacia do país, encontrando base no fenômeno de regionalização que caracteriza a globalização. De fato, o intercâmbio cresceu nos últimos anos especialmente entre vizinhos, e que possuem um semelhante nível de desenvolvimento. Este fenômeno cresceu ainda mais com a instabilidade financeira e o crescimento do protecionismo, que recentemente tem caracterizado a economia internacional, e está presente nas demais regiões do mundo.

A atitude argentina decorre, por um lado, de uma forma de ressentimento pela liderança brasileira, busca de uma barganha (mais vantagens comerciais em troca de apoio) e medo de perda de importância relativa, na medida em que a cooperação com o Brasil se diluirá por um maior número de países. O problema com o Chile resulta da situação objetiva deste país e de sua forma de inserção internacional, mas caso a Comunidade Sul-Americana de Nações se consolide, ele terá de buscar uma acomodação com os vizinhos. O problema colombiano decorre mais de fatores políticos, como a relação com os EUA via Plano Colômbia, mas não é irreversível. Os demais estão de acordo.

A integração sul-americana tem a vantagem de criar um forte mercado regional, que alavancará as economias da área, como também reforçará o interesse de outros parceiros, como a União Européia e a Ásia oriental. Especialmente porque cria um contrapeso à ALCA, cujas negociações se encontram estagnadas. Da mesma forma, o novo bloco terá mais poder nas negociações da OMC e criará um elemento positivo para o desenvolvimento, pois a região possui um enorme potencial de crescimento, ao contrário de pólos que já atingiram certo nível de saturação. Particularmente chama atenção o volume de recursos naturais existentes.

Certamente o voluntarismo político é a marca do processo, que muitos apontam como ponto fraco. Mas pode-se considerar que um problema da diplomacia da década anterior foi não haver pensado grande e ter deixado de agir no momento certo. Assim, é melhor correr o risco de ver um projeto não se concretizar do que deixar de formular projetos. Até porque não há, atualmente, maiores e melhores propostas viáveis na mesa de negociações. Por outro lado, parcerias estratégicas como a que está sendo articulada com países do porte da China, terão maior eficácia se promovidas pela região como um todo, para que não seja demasiadamente assimétrica. Desta forma, embora tenha enormes dificuldades pela frente, a iniciativa lançada em Cuzco também representa um potencial trunfo que não pode deixar de ser explorado.

13/12/2004

    
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