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O Brasil no Conselho de Segurança da Onu



Uma foto marcou fortemente o cenário político internacional durante a abertura da 59ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, ocorrida dia 21 de setembro de 2004: o primeiro ministro indiano Manmohan Singh, o japonês Junichiro Koizumi, o vice alemão Joschka Fischer e o presidente Luís Inácio Lula da Silva com as mãos entrelaçadas, numa demonstração de apoio mútuo para a obtenção de uma vaga de membro permanente do Conselho de Segurança. Os dois gigantes econômicos, que haviam sido derrotados na II Guerra Mundial, e os dois maiores e mais importantes países em desenvolvimento selaram uma aliança formal em defesa de suas candidaturas, no contexto da reforma das Nações Unidas.

Desde o fim da Guerra Fria, que encerrou a ordem mundial pós-II Guerra Mundial, a segunda e a terceira maiores economias do mundo de então (e grandes contribuintes financeiros da ONU) reivindicavam uma posição no sistema internacional que fosse compatível com seu poder material. Tratava-se de recuperar a plena soberania, perdida desde 1945, sendo que a Alemanha acabara de se reunificar. Ao mesmo tempo, o Brasil e a Índia, além de outros países, reivindicavam o mesmo direito, como representantes de suas regiões.

O Brasil, desde o governo Itamar Franco, passou a trabalhar de forma sistemática pela candidatura brasileira. O presidente seguinte, Fernando Henrique Cardoso, em seus dois mandatos deu continuidade à tarefa, mas numa perspectiva um tanto distinta. Ao levar o Brasil a aderir completamente à nova agenda internacional da época da globalização e adotar o modelo vigente de abertura econômica, acreditava que o país estaria sendo qualificado para o posto, e que os cinco membros permanentes reconheceriam nossa legitimidade. Foi um pouco de ilusão, pois em política ninguém dá; é preciso conquistar. E para conquistar é necessário ampliar seu poder, e não renunciar a ele, como foi a marca do ex-presidente.

O debate sobre a reforma da ONU se arrastava, com uma infinidade de propostas e de candidaturas, que se confrontavam mutuamente (México e Argentina também se candidatavam, tentando bloquear a iniciativa brasileira). Veio a guerra do Iraque, com o chocante desrespeito da administração Bush pela posição da ONU, desencadeando o conflito sem um mandato das Nações Unidas. Para muitos analistas, a organização estava acabada. Mas foi então que muitos países despertaram para a necessidade urgente da reforma, como instrumento para estabelecer uma ordem multipolar e multilateral, em lugar de uma nova hegemonia.

No governo Lula, a diplomacia brasileira passou a priorizar a autonomia, a contestação moderada e propositiva, alianças estratégicas compatíveis com o peso do país (especialmente com os grandes países em desenvolvimento), a integração e a liderança sul-americana e uma campanha a favor da dimensão social. Para o público de classe média, a luta contra a fome parece ingênua, mas ela tem um forte apelo junto aos países africanos (que representam quase 30% da ONU) e em vastas áreas da América Latina, Oriente Médio e Ásia, mas também em importantes meios sociais e políticos dos países ricos.

Além disso, a ação junto à OMC, a formação do G-3 (com África do Sul e Índia), o apoio material e político à países em dificuldade, a oposição à guerra e a própria origem social e política do presidente (primeiro não oriundo da elite, de esquerda mas moderado e vinculado à agenda do Fórum Social Mundial), tiveram considerável impacto sobre a comunidade internacional. Assim, o Brasil ganhou importante espaço político, aparecendo como "o novo" nas relações internacionais, e está no centro de um movimento político para a conquista de um assento permanente no CS da ONU. A manifestação positiva de outros membros, como França, China e, inclusive, Inglaterra, demonstra que nunca estivemos tão perto como agora. E a agenda que o país defende no plano mundial seria uma contribuição importante para uma ordem internacional mais estável e justa.

28/09/2004

    
pg.
 
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