|
A telenovela e a canção popular - parte I
Nas décadas de 1960 e 1970 assistiu-se à crescente urbanização do país, à ampliação geométrica das classes médias, à expansão do ensino em todos os níveis e ao triunfo de uma ordem capitalista com seus modernos padrões de vida e de consumo. Estas mudanças possibilitaram a emergência de manifestações culturais que até então eram consideradas de segunda ordem ou não existiam, como a canção popular e a telenovela. Obviamente elas teriam obtido menor repercussão não fosse o barateamento dos aparelhos de som e dos televisores, hoje presentes na maioria dos domicílios brasileiros. Quando tais objetos tornaram-se acessíveis a quase todas as camadas sociais, tanto a canção quanto a telenovela ocuparam o lugar de carros-chefe de uma poderosa indústria cultural que então nascia no país. Pode-se discutir se a importância social destas manifestações culturais não é desproporcional a relativa modéstia de seu alcance artístico (especificamente no caso da telenovela), mas ninguém pode desconsiderar o fato de que é impossível entender ideologicamente o Brasil contemporâneo sem o auxílio das mesmas. Mais do que a literatura, do que as artes plásticas e do que o teatro, a telenovela e a canção expressaram as conquistas e também as perdas geradas por um processo histórico vertiginoso. Processo que, em poucas décadas, converteu um país agrário e letárgico num país industrializado e dinâmico, ainda que contraditório.
A telenovela começou a se impor ao gosto do público seguindo os mesmos padrões da radionovela que, nos anos de 1940 e 1950, cativara especialmente as ouvintes com folhetins extremados e inverossímeis, escritos por autores mexicanos e cubanos. O direito de nascer, célebre dramalhão do cubano Felix Caignet, por exemplo, que tivera grande audiência no rádio, foi adaptado com idêntico sucesso para a televisão (TV Tupi) em 1964. Assim, muitas das primeiras telenovelas baseavam-se em antigos êxitos da “Era do rádio”. Nelas, a par da intriga melodramática e da simplificação grosseira dos caracteres e das paixões humanas, os cenários eram estranhos ao cotidiano dos espectadores. As ações transcorriam em um passado remoto (As minas de prata), ou em locais improváveis (O sheik de Agadir), ou em ambientes de caracterização vaga, sem referências concretas à vida brasileira (A moça que veio de longe). Contudo, em 1966, a TV Excelsior lançou, no horário do fim da tarde, Redenção, de Raimundo Lopes. Redenção era o nome de uma pequena cidade – típica cidade do interior brasileiro – onde transcorriam os acontecimentos. Tamanha foi a audiência desta telenovela que ela ficou dois anos no ar. A sua fórmula cristalizaria o modelo do gênero que vigora até hoje: - Narrativa folhetinesca (enredo centrado em complicações amorosas, identidades ocultas e crimes insolúveis até a resolução final no último capítulo, numa postergação contínua da expectativa do público; maniqueísmo moral; conversões súbitas dos protagonistas, etc.) - Revelação, através das ações concretas dos personagens, da nova realidade sócio-econômica brasileira que se consolidava com o regime militar imposto em 1964, fosse a realidade das grandes metrópoles ou das cidadezinhas do interior. A telenovela passou a registrar uma sociedade que se desapegava da vida rural, da dominação da Igreja, do coronelismo político, dos velhos valores do patriarcalismo, da moralidade rígida e da frugalidade existencial. E passou a mostrar também a conversão desta sociedade numa ordenação capitalista moderna, sedimentada nos valores do individualismo, da celebração do consumo e dos prazeres materiais da vida. Desta maneira, quando o antigo Brasil agrário, conservador e anti-moderno era evocado aos espectadores, o era geralmente de um ponto de vista satírico ou puramente crítico. Contudo, o aspecto “pedagógico” mais significativo da telenovela talvez tenha sido o ensinamento do espírito capitalista aos espectadores. A ocupação econômica dos personagens sempre teve peso decisivo nos enredos. Do contraditório Beto Rockfeller (1968), mescla de vigarista e bom-caráter, que vive de bicos, à Dona Xepa (1977), uma simples feirante que consegue criar sozinha dois filhos apenas com o fruto de seu trabalho; de Carlão, em Pecado capital (1975),que ascende com o dinheiro de um assalto deixado em seu táxi, à “emergente” Maria do Carmo que enriquece com ferro-velho, em A rainha da sucata (1990); a luta pela conquista do dinheiro foi núcleo temático indispensável de todas as telenovelas a partir do fim da década de 1960. Em geral, valorizou-se o pequeno negócio, o emprendedorismo, a iniciativa individual e condenou-se a negociata, a transação escusa, a escalada social a qualquer custo. Além disso, dentro dos limites impostos pela censura do regime militar – que perdurou até meados de 1980 – mostrou-se a história do país ou abordou-se temas polêmicos, em telenovelas que apresentavam maior consistência realista. Algumas destas ficções como Os imigrantes(...), O espigão (1974), Escalada (1975), Gabriela (1975) Casarão (1976), Os ossos do barão(1973) e Roque Santeiro(1986) deleitaram milhões de espectadores e revelaram aspectos importantes da formação social do país.No entanto, a partir da última década do século XX, a telenovela perdeu parte considerável de suas funções didáticas, resumidas agora apenas à manifestação do “politicamente correto”(defesa das minorias sexuais, por exemplo). Isso explica a redução substancial de sua importância na cultura brasileira. Ressalte-se, por fim, que a par da modernização dos comportamentos, do ensinamento do novo espírito capitalista (em detrimento da mentalidade patriarcal/agrária/arcaica) e de belos registros circunstanciais da realidade do país, a telenovela mostrou também uma face sombria, especialmente a partir dos anos 90. O uso indiscriminado do merchandising, o apelo consumista sem quaisquer limites éticos, a erotização perversa da infância e da adolescência, a contínua exploração da nudez gratuita, a estetização da violência, a inadequação de certos temas em relação ao horário de sua apresentação revelaram, por vezes, uma obscena indiferença a certos padrões morais mínimos, exigidos por qualquer civilização que se preze. Pode-se afirmar que, à medida em que a telenovela foi perdendo sua importância sócio-histórica, roteiristas e diretores apelaram cada vez mais para a exploração da sexualidade, contribuindo de maneira irresponsável, para precoce iniciação erótica de milhões de adolescentes brasileiros (principalmente os mais pobres), com sua conseqüente carga de gravidez indesejada, paternidade irresponsável e traumas de diversas espécies.
|