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A telenovela e a canção popular - parte II

A CANÇÃO POPULAR

A canção como é entendida hoje – um produto cultural que une indissoluvelmente letra e música – está vinculada de maneira orgânica à indústria fonográfica.* Por isto, sua expansão (veja-se a quantidade de músicos em ação no país) e sua aceitação como arte genuína junto aos estratos sociais mais elevados decorrem da criação de uma sociedade de consumo de base relativamente ampla que democratizou os gostos e os hábitos culturais dos brasileiros. Por isto também, é da natureza da canção o caráter inteligível de suas letras, que obrigatoriamente devem ser entendias por parte considerável do que se chama de grande público.

*A explosão da chamada música popular deu-se nos Estados Unidos a partir da década de 1930, quando passou a ser um fenômeno de dimensões continentais. Os grandes programas de rádio eram ouvidos de costa-a-costa, facilitando o aparecimento de novos artistas e mitos da comunicação. As condições técnicas para gravação de discos e as transmissões de longa distância vinham sendo aperfeiçoadas com muita velocidade desde o início do século XX, fazendo com que a qualidade do som também se tornasse um produto.
Já no Brasil, a primeira gravação de um samba, Pelo telefone, deu-se em 1917. É uma espécie de marco histórico da integração entre a música popular brasileira e a nascente indústria cultural, sedimentado o caminho para o triunfo da canção. Registrado e cantado por Donga, Pelo telefone, entretanto, era uma criação coletiva de instrumentistas, cantores e compositores que se apresentavam em bares, cinemas, festas, casas de família ou casas noturnas da antiga capital federal.

Coube a Noel Rosa na década de 1930 consolidar a canção através de obras de alta qualidade musical que antecipavam a “infindável riqueza de soluções harmônicas e de giros melódicos insuspeitos que iria caracterizar a canção da música popular brasileira” (Celso L. Chaves). A este talento melódico, somou-se a irreverência do espírito carioca, o registro dos costumes urbanos e um olhar atento sobre o cotidiano. Apesar de ter vivido apenas vinte e sete anos, Noel Rosa deixou um grande número de belas canções. Mesmo que seja impossível, na prática, dissociar letra e melodia, é notável a capacidade de observação da vida evidenciada em suas canções:

Com que roupa: Agora eu vou mudar minha conduta / Eu vou pra luta / Pois eu quero me aprumar./ Vou tratar você com força bruta, / Pra poder me reabilitar. / Pois esta vida não está sopa / E eu pergunto: com que roupa, / Com que roupa eu vou / Ao samba que você me convidou
Último desejo: Nosso amor que eu não esqueço, / E que teve seu começo / Numa festa de São João, / Morre hoje sem foguete, / Sem retrato e sem bilhete / Sem luar... sem violão. / Perto de você me calo, / Tudo penso e nada falo... / Tenho medo de chorar. / Nunca mais quero o seu beijo, / Pois meu último desejo / Você não pode negar.



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