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A telenovela e a canção popular - parte III
Na segunda metade dos anos de 1950, indicando a participação cada vez maior das classes médias na chamada música popular, surge, no Rio de Janeiro, a Bossa Nova, tendo como nomes principais Tom Jobim e João Gilberto. Marcada por influências do jazz e do samba, utilizando acordes estranhos e dissonantes à harmonia tradicional e valendo-se de interpretações inovadoras (o canto flui como na fala normal), a Bossa Nova significou uma inigualável sofisticação da canção brasileira, que passou a figurar entre as melhores do mundo. Nas letras, a presença dominante de Vinícius de Moraes garantiu ao movimento significativa qualidade lírica, ainda que as mesmas se reduzissem tematicamente (em consonância com o otimismo ufanista da época) à celebração do amor possível, ao canto das belezas naturais do Rio de Janeiro e à metalinguagagem (Desafinado, por exemplo). Nos anos 60, ocorreu uma estreita associação entre a tevê e a música popular. Surgiram programas como O fino da bossa, comandado por Elis Regina, e Jovem Guarda, por Roberto Carlos, ambos de 1965. O sucesso de audiência dos mesmos impulsionou espetacularmente o mercado de discos no Brasil, criando os novos astros da juventude e delimitando duas tendências opostas no campo da música popular: 1) A auto-intitulada MPB. (Música Popular Brasileira) – herdeira da tradição do passado, do samba à Bossa Nova, passando por outros ritmos tradicionais, como o frevo, a modinha, etc.Tematicamente, os jovens compositores apoiavam-se na vertente lírica da nostalgia e da celebração sentimental. Ao mesmo tempo, elaboravam canções de protesto contra o regime militar através de mensagens poéticas que insistiam na proximidade da aurora, do amanhã e do carnaval, metáforas de uma nova ordem que logo viria, destruindo a ditadura. Entre outros, integraram a referida corrente Chico Buarque de Holanda, Geraldo Vandré e Edu Lobo e, por curto tempo, Caetano Veloso e Gilberto Gil. 2) A Jovem Guarda, também conhecida como iê-iê-iê – voltada para um público ainda mais jovem e menos refinado. Este movimento traduziu, singelamente, em termos brasileiros, a explosão musical de The Beatles, The Rolling Stones e outros monstros sagrados dos anos 60. Se para o grupo da MPB a guitarra elétrica, por exemplo, era um instrumento imperialista, para os cabeludos da Jovem Guarda era a possibilidade de reproduzir no Brasil os sons que eles amavam. Além de Roberto Carlos, faziam parte do grupo Erasmo Carlos, Vanderléia, Sérgio Reis, etc. Além da tentativa de adequar a sonoridade pop à musica que produziam, os participantes da Jovem Guarda valorizaram uma linha temática voltada para os novos comportamentos afetivos e sexuais (estes mais sugeridos) da juventude, principalmente os amorosos. Entre as várias canções feitas em parceria por Roberto e Erasmo Carlos, uma permaneceu como expressão do realismo trivial (mas encantador e libertário) com que a dupla registrava as mudanças comportamentais, então em curso. Seu refrão é a suma de uma época juvenil: Quero que você me aqueça neste inverno / E que tudo mais vá para o inferno! Uma espécie de síntese antropofágica das tendências anteriores foi realizada pelo Movimento Tropicalista, que surgiu com uma carga de iconoclastia e vanguardismo chocantes para a época (1967). O principal nome do grupo, Caetano Veloso, apontou as influências que pesaram na formulação do Tropicalismo: as estranhas instalações (artes plásticas) de Hélio Oiticica; a explosiva montagem de O rei da vela (1966), de Oswald de Andrade, que José Celso Martinez Correa pôs em cena; o delírio barroco de Terra em transe, o filme político por excelência de Glauber Rocha; a poesia concreta paulista e as idéias antropofágicas de Oswald de Andrade. Os tropicalistas romperam com a ingenuidade ideológica e estética de seus antigos companheiros que integravam a chamada MPB, atacando seu nacionalismo musical e sua visão política messiânica. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Capinam, Torquato Neto, Rogério Duprat e outros celebraram uma música aberta a todos os ritmos brasileiros e latino-americanos, mesclando-os ironicamente ao som pop internacional e assim criando estranhos efeitos melódicos. Buscaram também em suas letras revelar um Brasil simultaneamente primitivista e moderno, fazendo referências a ídolos da cultura de massas e a elementos de mau-gosto (o kitsch) da cultura popular. Desta maneira, tentavam registrar a grande “geléia geral” da sociedade brasileira como Oswald de Andrade já o fizera em sua poesia, na década de 1920. A exemplo dele, os tropicalistas envolveram suas criações num clima de paródia e visão crítica da realidade, como se pode ver neste excerto de Tropicália, de Caetano Veloso: sobre a cabeça os aviões / sob meus pés os caminhões / aponta contra os chapadões / meu nariz / eu organizo o movimento / eu oriento o carnaval / eu inauguro o monumento no planalto central / do país / viva a bossa-ssa-ssa / viva a palhoça-ça-ça-ça-ça / O monumento é de papel crepom e prata / os olhos verdes de mulata / a cabeleira esconde atrás da verde mata / o luar do sertão / o monumento não tem porta / a entrada é uma rua antiga estreita e torta / e no joelho uma criança sorridente feia e morta / estende a mão / viva a mata-ta-ta-ta-ta / viva a mulata-ta-ta-ta-ta Nos anos 70, contudo, as diferenças entre os vários grupos se diluíram, a oposição “nacional e popular versus música do imperialismo” desapareceu e a canção brasileira deixou de ter qualquer fórmula exclusiva. Nos momentos esteticamente mais expressivos (particularmente nas décadas de 1970 e 1980), esta formulação musical conseguiu operar um milagroso encontro entre a alta cultura e a cultura de massas, sendo apreciada, ao mesmo tempo, por intelectuais e gente humilde do povo. Além disso, canções de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Fernando Brandt e Milton Nascimento, Paulinho da Viola, João Bosco e Aldir Blanc, e de tantos outros compositores, tornaram-se símbolos de momentos recentes da história brasileira, como Alegria alegria, Sinal fechado, Cálice, Vai passar, Nas asas da Panair, O bêbado e o equilibrista, etc. Foi tão forte esta relação que evocar tais canções é evocar o Brasil contemporâneo. E vice-versa. Contudo, estas canções (e inúmeras outras) superaram as circunstâncias históricas, que traduziram genialmente, e parecem ter adquirido a perenidade reservada apenas às legítimas obras de arte. Entre todos os compositores que fizeram a história da canção brasileira, Francisco Buarque de Holanda (ou simplesmente Chico) é o que melhor explorou as possibilidades verbais do gênero, criando um conjunto de obras inesquecíveis, entre as quais, apenas para citar um exemplo, encontra-se Anna de Amsterdam: Sou Anna do dique e das docas, / Da compra, da venda, das trocas, das pernas. / Dos braços, das bocas, do lixo, dos bichos das fichas. / Sou Anna das loucas. / Até amanhã / Sou Anna / Da cama, da cana, fulana, sacana, / Sou Anna de Amsterdam. (...) Sou Anna de vinte minutos / Sou Anna da brasa, dos brutos na coxa / Que apaga charutos, sou Anna dos dentes rangendo / E de olhos enxutos. / Ate amanhã / Sou Anna / Das marcas, das macas, das vacas, das pratas, / Sou Anna de Amsterdam. PARA SABER MAIS DACANAL, José Hildebrando. Era uma vez a literatura in Ensaios escolhidos. Porto Alegre, Leitura XXI, 2003. (Análise penetrante do declínio da literatura em detrimento dos meios áudio-visuais de comunicação). FERNANDES, Ismael. Telenovela brasileira. São Paulo, Brasiliense, 1994. (Interessante como resumo de telenovelas de todas as redes).
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