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O teatro contemporâneo - parte II

VESTIDO DE NOIVA

Em uma de suas crônicas, Nelson Rodrigues relembrou o processo de nascimento de Vestido de noiva: “...o processo de ações simultâneas, em tempos diferentes. Uma mulher morta assistia ao próprio velório e dizia do próprio cadáver: ‘Gente morta como fica feia.’ Morrera assassinada em 1905 e contracenava com a noiva de 1943”.

A peça, dirigida pelo diretor polonês Ziembinski, com cenários de Santa Rosa, teve extraordinária repercussão. Tanto o texto quanto a encenação eram experiências radicalmente novas para os espectadores. Manuel Bandeira captou o sentimento da intelectualidade do Rio de Janeiro que assistira à montagem revolucionária:

Sem dúvida, o teatro desse estreante desnorteia bastante, porque nunca é apresentado só nas três dimensões euclidianas da realidade física. Nelson Rodrigues é poeta. Talvez não faça nem possa fazer versos. Eu sei fazê-los. O que me dana é não ter como ele esse dom divino de dar vida às criaturas da minha imaginação. Vestido de noiva em outro meio consagraria um autor. Que será aqui? Se for bem aceita, consagrará...o público.

A peça tem a ação dividida em três planos:

A) Realidade: No plano da realidade, que dá início a peça, o estrépito de um acidente de carro é seguido de repórteres que comunicam o atropelamento de uma mulher. Esta é identificada: Alaíde Moreira, 25 anos, casada com o industrial Pedro Moreira. Na mesa de cirurgia, Alaíde delira – assim o espectador passa aos planos da memória e da alucinação. Por fim, os médicos anunciam a morte da jovem.

B) Alucinação: Sem a interdição da censura moral, todos os desejos de Alaíde se libertam. Às cenas de delírio soma-se a lembrança de fatos reais, vividos pela personagem. Divagando, Alaíde procura Madame Clessi, prostituta do início do século que fora assassinada por um amante adolescente. Na representação da memória, o espectador descobre que Alaíde tinha um diário da mundana, encontrado no sótão da casa em que vivera antes de casar. O casamento sem grandes aventuras e o cotidiano banal haviam transformado Alaíde numa Bovary carioca, o que a faz projetar seus impulsos e seus desejos na figura da prostitua Clessi.

C) Memória: Alaíde concentra o esforço ordenador da memória na reconstituição das cenas do casamento. Um dado verdadeiro que já surgira no plano da alucinação: ela roubara Pedro da irmã, Lúcia. É da consciência culpada da protagonista que surge a imagem da Mulher de Véu – que depois se revelará como sendo a própria Lúcia. Misturando num ritmo gradativo as ações dos três planos, a peça encaminha-se para o desfecho no qual Lúcia acaba por casar-se com Pedro. É Alaíde quem entrega o buquê à noiva, acompanhada de Madame Clessi. A peça se encerra com apenas uma luz sobre o túmulo de Alaíde.

O QUE OBSERVAR

- O predomínio dos planos da memória e da alucinação. Este procedimento que se tornará comum em inúmeras peças de Nelson Rodrigues. A realidade é apresentada a partir do filtro da mente dos personagens. Com forte efeito psicológico, esse procedimento é evidente em Vestido de noiva. A matéria fundamental da peça está no plano do delírio e, ao mesmo tempo, no plano da memória de Alaíde.

- Ao situar a ação da obra no território livre do subconsciente (em que se situam o plano da memória e mesmo o da alucinação) o autor favorece as possibilidades de criação. Fora do alcance da censura – que a psicanálise chamaria de super ego –, a heroína pode liberar sua libido, seus desejos reprimidos. É assim que surge, em Alaíde, como projeção de suas fantasias na figura da prostituta, Madame Clessi. Infeliz no casamento, insatisfeita com a realidade mesquinha da vida ordinária, a protagonista encontra na identificação com a prostituta uma compensação.

- Percebe-se em Vestido de Noiva a inclinação do autor para uma estética expressionista, em que o exagero, a deformação ou a obsessão dos personagens, ao invés de proporcionarem o tom cômico, funcionam como elementos intensificadores da dramaticidade de cenas e situações.Além de reforçar a capacidade de criação visual, imagética, os elementos grotescos da peça contribuem para estabelecer uma visão pessimista e sombria da realidade.

- Há em Vestido de noiva – como em outras peças de Nelson Rodrigues – a presença do folhetinesco, traduzida na disputa das duas irmãs por Pedro. O dramaturgo sempre foi um entusiasmado leitor de folhetins e soube usar os temas simplistas e melodramáticos do gênero para buscar um sentido psicológico profundo para seus personagens, alcançando, muitas vezes, uma concepção trágica da existência.

- A ação da peça transcorre no âmbito familiar. A família é o núcleo de todas danações dos personagens de Nelson Rodrigues, nesta e em suas demais peças, seja esta família de origem suburbana, de classe média ou burguesa. É no interior dessa comunidade que deveria proteger seus membros, que os dramas ocorrem. Paixões proibidas, ódio recalcado, violência, crueldade e outros sentimentos degradados implodem a estrutura familiar, transformando-a em um inferno em que os personagens das peças vivem como seres para sempre amaldiçoados.



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